RESUMOS DE DIVERSAS OBRAS LITERÁRIAS.

Memórias de um Sargento de Milícias – resumo e análise da obra de Manuel Antônio de Almeida
O romance de Manuel Antônio de Almeida, escrito no período do romantismo, retrata a vida do Rio de Janeiro no início do século XIX e desenvolve pela primeira vez na literatura nacional a figura do malandro

Memórias de um Sargento de Milícias surgiu como um romance de folhetim, ou seja, em capítulos, publicados semanalmente no jornal Correio Mercantil, do Rio de Janeiro, entre junho de 1852 e julho de 1853. Os folhetins não indicavam quem era o autor. A história saiu em livro em 1854 (primeiro volume) e 1855 (segundo volume), com autoria creditada a “Um Brasileiro”. O nome de Manuel Antônio de Almeida aparecerá apenas na terceira edição, já póstuma, em 1863.

ENREDO
Por ser originariamente um folhetim, publicado semanalmente, o enredo necessitava prender a atenção do leitor, com capítulos curtos e até certo ponto independentes, em geral contendo um episódio completo. A trama, por isso, é complexa, formada de histórias que se sucedem e nem sempre se relacionam por causa e efeito.

“Filho de uma pisadela e de um beliscão” (referência à maneira como seus pais flertaram, ao se conhecer no navio que os conduz de Portugal ao Brasil), o pequeno Leonardo é uma criança intratável, que parece prever as dificuldades que irá enfrentar. E não são poucas: abandonado pela mãe, que foge para Portugal com um capitão de navio, é igualmente abandonado pelo pai, mas encontra no padrinho seu protetor. Esse é dono de uma barbearia e tem guardada boa soma em dinheiro.

A origem pouco digna desse capital – o barbeiro desviou a herança que um capitão moribundo deixara à sobrinha – só será revelada posteriormente. A fórmula “arranjei-me” sintetiza, no romance, a explicação dada pelo barbeiro para a posse do dinheiro. O autor acaba por dizer que muitos “arranjei-me”, equivalentes ao atual “jeitinho brasileiro”, se explicam assim, e estende essa representação de sua história a toda a sociedade da época.

As aventuras e desventuras de Leonardo, que o autor faz desfilar diante dos leitores com dinamismo, conduzem o protagonista a apuros dos quais ele sempre se salva, graças a seus protetores. Leonardo é um personagem fixo no romance, suas características básicas não mudam.

TEMPO
A história se passa no começo do século XIX, ocasião em que a família real portuguesa se refugiou no Brasil. Por isso, o romance tem início com a expressão “Era no tempo do rei”, referindo-se ao rei português dom João VI. Essa fórmula também faz referência – e isso é mais relevante para entender a estrutura do romance – aos inícios dos contos de fada: “Era uma vez…”

NARRADOR
Apesar do título de “memórias”, o romance não é narrado pelo personagem Leonardo, e sim por um narrador onisciente em terceira pessoa, que tece comentários e digressões no desenrolar dos acontecimentos. O termo “memórias” refere-se à evocação de um tempo passado, reconstruído por meio das histórias por que passa o personagem Leonardo.

ORDEM E DESORDEM
Duas forças de tensão movem os personagens do romance: ordem e desordem, que se revelarão características profundas da sociedade colonial de então.

A figura do major Vidigal representa o polo que, na história, cuida da ordem: “O major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que dava e distribuía penas e, ao mesmo tempo, o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua justiça não havia testemunhas, nem provas, nem razões, nem processos; ele resumia tudo em si (…)”.

A estabilidade social representa a ordem, enquanto a instabilidade se refere à desordem. Dessa forma, o barbeiro, completamente adequado à sociedade, ao revelar as origens pouco recomendáveis de sua estabilidade financeira, evoca no seu passado a desordem.

Personagens como o major Vidigal, a comadre, dona Maria e o compadre pertencem ao lado da ordem. Mas os personagens desse polo nada têm de retidão, apenas estão em uma situação social mais estável.

O polo da desordem é formado pelo malandro Teotônio, o sacristão da Sé e Vidinha. A acomodação dos personagens, tanto na ordem como na desordem, está sujeita a uma mudança repentina de polo, ou seja, não existe quem esteja totalmente situado no campo da ordem nem no da desordem. Não há, portanto, uma caracterização maniqueísta dos tipos apresentados.

O major Vidigal, por exemplo, um típico mantenedor da ordem, transgride o código moral ao libertar e promover Leonardo em troca dos favores amorosos de Maria Regalada.

ROMANCE MALANDRO
Nos estudos sobre a obra, houve uma linha de interpretação que, seguindo as indicações de Mário de Andrade, e tendo como base o enredo episódico do livro, classificou o romance como uma manifestação tardia do “romance picaresco”, gênero popular espanhol medieval dos séculos XVII e XVIII.

O gênero picaresco – do qual o mais ilustre representante é o romance Lazareto de Tormes – caracteriza-se por narrar, em primeira pessoa, os infortúnios de um pícaro, um garoto inocente e puro que se torna amargo à medida que entra em contato com a dureza das condições de sobrevivência. Por isso procura sempre agradar a seus superiores. O pícaro tem geralmente um destino negativo, acaba por aceitar a mediocridade e acomodar-se na lamentação desiludida, na miséria ou num casamento que não lhe dá prazer algum.

Nenhuma dessas características está presente em Memórias de um Sargento de Milícias. Leonardo não é inocente. Ao contrário, parece já ter nascido com “maus bofes”, como afirma a vizinha agourenta. Também não é totalmente abandonado, tendo sempre alguém que toma seu partido e procura favorecê-lo.

Ele ainda desafia seus superiores, como o mestre-de-cerimônias e o Vidigal. Por fim, Leonardo não encontra um destino negativo, pois se casa com o objeto de sua paixão (Luisinha, a sobrinha de dona Maria), acumulando cinco heranças e granjeando uma promoção com o major Vidigal.

Existem, de fato, algumas semelhanças entre Leonardo e os personagens picarescos. Uma é a atitude inconsequente do protagonista, que o leva, por exemplo, a esquecer-se rapidamente de Luisinha ao conhecer Vidinha. Depois, o amor antigo retorna, mas nada dá a entender que não possa acabar novamente. Essas semelhanças, porém, são superficiais, por isso é problemática a classificação de Memórias de um Sargento de Milícias como romance picaresco.
O que se vê é que Manuel Antônio de Almeida foge completamente ao idealismo romântico de sua época. Se há traços românticos em sua obra, eles estão no tom irônico e satírico que assume o narrador.

A conclusão possível é que estamos diante de um novo gênero nacional, que se constrói em torno da figura do malandro, personagem que tem influências popularescas, como Pedro Malasarte; mas é urbano e relaciona- se socialmente com as esferas da ordem e da desordem, já citadas.
É mais apropriado, por isso, classificar essa obra como um “romance malandro”, de cunho satírico e com elementos de fábula. Esse gênero frutificará em vários romances posteriores, como Macunaíma, de Mário de Andrade, e Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

O Quinze, de Rachel de Queiroz

Recomende esta página para um amigo

Versão para impressão

Análise da obra

Publicado em 1930, o romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, renovou a ficção regionalista. Possui cenas e episódios característicos da região, com a procissão de pedir chuva, são traços descritivos da condição do retirante. O sentido reivindicatório, entretanto não traz soluções prontas, preferindo apontar os males da região através de observação narrativa.

Em O Quinze, primeiro e mais popular romance de Rachel de Queiroz, a autora exprime intensa preocupação social, apoiada, contudo, na análise psicológica das personagens, especialmente o homem nordestino, sob pressão de forças atávicas que o impelem à aceitação fatalista do destino. Há uma tomada de posição temática da seca, do coronelismo e dos impulsos passionais, em que o psicológico se harmoniza com o social.

A obra apresenta a seca do nordeste e a fome como conseqüência, não trazendo ou tentando dar uma lição, mas como imagem da vida.

Não percebe-se uma total separação entre ricos e pobres, e esta fusão é feita através da personagem Conceição que pertence realmente aos dois mundos. Evitando assim o perigo dos romances sociais na divisão entre “bons pobres” e “maus ricos”, não condicionando inocentes ou culpados.

Estrutura da obra

O título do livro evoca a terrível seca do Ceará de 1915. A própria família de Rachel foi obrigada a fugir do Ceará: foi para o Rio de Janeiro, depois para Belém do Pará. Compõe-se de 26 capítulos, sem títulos, enumerados.

A classificação de O Quinze é, sem dúvida, de romance regionalista de temática social. Mas com uma visão que foge ao clichê tradicional. Não há, na história, a divisão batida de \”pessoas boas e pobres\” e de \”pessoas más e ricas\”. A autora registrou no papel a sua emoção, sem condicionar o romance a uma tese ou à preocupação de procurar inocentes e culpado pela desgraça de cada um ou mesmo do grupo envolvido na história.

A história é recheada de amarguras. Bastaria a saga da família de Chico Bento para marcar o romance com as cores negras da desgraça. A morte está por toda parte. Está no calvário da família de retirantes, está em cada parada da caminhada fatigante, está no Campo de Concentração. Morte de gente e de bichos.

A história de amor entre Vicente e Conceição poderia ser o lado bom e humano da história. Não é. A falta de comunicação entre os dois, o desnível cultural que os separa constituem ingredientes amargos para um desfecho infeliz. É como se a seca, responsável por tantos infortúnios, fosse causadora de mais um: a impossibilidade de ser feliz para quem tem consciência da miséria.

Romance de profundidade psicológica. A análise exterior dos personagens existe, mas sem relevo especial dentro do livro. A autora vai soltando uma característica aqui, outra além, sem interromper a narrativa para minúcias. O lado introspectivo, psicológico é uma constante em toda a narrativa. Ao mesmo tempo em que o narrador informa as ações dos personagens, introduz interrogações e dúvidas que teriam passado por sua cabeça, por seu espírito.

Tempo

A autora situa a história do romance no Ceará de 1915. O fato histórico importante da época era a própria seca, obrigando os filhos da terra, principalmente do sertão, a migrarem para o Amazonas ou para São Paulo, à procura de vida melhor. Não há avanços nem recuos. A história é contada em linha reta, valorizando o presente, o cotidiano das pessoas. O passado é evocado raramente, muito mais por Conceição. A passagem do tempo dentro do romance é marcada de maneira tradicional, obedecendo à seqüência de início, meio e fim.

Cenário

O cenário do romance é o Ceará. Especificamente, a região de Quixadá, onde se situam as fazendas de Dona Inácia (avó de Conceição), do Capitão (pai de Vicente) e de Dona Maroca (patroa de Chico Bento).

Há também, em menor escala, o cenário urbano, destacando a capital, Fortaleza, para onde migram os retirantes e onde mora Conceição.

Linguagem

O sucesso do livro está atrelado à simplicidade da linguagem (a mais difícil das virtudes literárias!). Não há exibicionismo da autora no uso de palavreado erudito. Mesmo quando a dona da palavra é uma professora (Conceição), o diálogo flui espontâneo, normal, cotidiano.

Sua linguagem é natural, direta, coloquial, simples, sóbria, condicionada ao assunto e á região, própria da linguagem moderna brasileira. A estas características deve-se ao não envelhecimento da obra, pois sua matéria está isenta do peso da idade. Em O Quinze, Rachel usa o que lhe deu fama imediata: uma linguagem regionalista sem afetação, sem pretensão literária e sem vínculo obrigatório a um falar específico (modismo comum na tendência regionalista).

A sobriedade da construção, a nitidez das formas, a emoção sem grandiloqüência, a economia de adjetivos são recursos perceptíveis em todo o livro.

Foco narrativo

O Quinze é romance narrado na terceira pessoa, ou seja, o narrador é a própria autora. O narrador é onisciente. Estando fora da história, o narrador vai penetrando na intimidade dos personagens como se fosse Deus. Sabe tudo sobre eles, por dentro e por fora. Conhece-lhes os desejos e adivinha-lhes o pensamento.

Discurso livre indireto. Em vez de apresentar o personagem em sua fala própria, marcada pelas aspas e pelos travessões (discurso direto), o narrador funde-se ao personagem, dando a impressão de que os dois falam juntos. Isto faz com que o narrador penetre na vida do personagem, no seu íntimo, adivinhando-lhe os anseios e dúvidas.

Personagens

Conceição – Não com os alunos, mas com a própria vida. Conceição é forte de espírito, culta, humana e com idéias um tanto avançadas sobre a condição feminina. O único homem que lhe despertou desejos é o primo Vicente. Conceição tem uma admiração antiga e especial pelo rapaz, talvez porque ele é real, sem as falsidades comuns dos moços bem-educados. Ao descobrir que ele não é tão puro, a admiração esfria, criando uma barreira intransponível para a realização plena do seu amor. Tinha vocação para solteirona: “Conceição tinha vinte e dois anos e não falava em casar. As suas poucas tentativas de namoro tinham-se ido embora com os dezoito anos e o tempo de normalista; dizia alegremente que nascera solteirona”. Conceição sente-se realizada ao criar Duquinha, o afilhado que lhe doaram Chico Bento e Cordulina. É uma realização íntima, preenchendo o vazio da decepção amorosa.

Vicente – Filho de fazendeiro rico, com condições de mandar os filhos para a escola, Vicente, desde menino, quis ser vaqueiro. No início, isso causava tristeza e desgosto à família, principalmente à mãe, Dona Idalina. Com o tempo, todos passaram a admirar o rapaz. Vicente é o vaqueiro não-tradicional da região. Cuida do gado com um desvelo incomum, mas cuida do que é seu, ao contrário dos outros (Chico Bento é o exemplo) que cuidam de gado alheio. Tem boas condições financeiras, mas é humano em relação à família e aos empregados. Vicente tinha dentes brancos com um ponto de ouro. Na intimidade, quando se põe a pensar na vida e na felicidade, associa tais coisas à Conceição. Tem uma admiração superior por ela. Gradualmente, à medida que vai notando a maneira fria com que ela passa a tratá-lo, Vicente começa a descrer no amor e na possibilidade de casar e ser feliz.

Chico Bento – Chico Bento é o protótipo do vaqueiro pobre, cuidando do rebanho dos outros. Ele é o vaqueiro de Dona Maroca, da fazenda das Aroeiras, na região de Quixadá. Ele e Vicente são compadres e vizinhos. Como é peculiar da pobreza brasileira e nordestina, Chico Bento tem a mulher (Cordulina) e cinco filhos, todos ainda pequenos. Pedro, o mais velho, tem doze anos. Expulso pela seca e pela dona da fazenda, Chico Bento e família empreendem uma caminhada desastrosa em direção a Fortaleza. Perde dois filhos no caminho: um morre envenenado (Josias), o outro desaparece (Pedro). Antes de embarcar para São Paulo, é obrigado a dar o mais novo (Duquinha) para a madrinha, Conceição. De Fortaleza, Chico Bento e parte da família vão, de navio, para São Paulo. É o exílio forçado, é a esperança de vida melhor e, quem sabe, de riqueza para quem só conheceu miséria no Ceará.

Cordulina – É a esposa de Chico Bento. Personifica a mulher submissa, analfabeta, sofredora, com o destino atrelado ao destino do marido. É o exemplo da miséria como conseqüência da falta de instrução.

Josias – Filho de Chico Bento e Cordulina, tem cerca de dez anos de idade. Comeu mandioca crua e morreu envenenado na estrada.

Pedro – Filho de Chico Bento e Cordulina, é o mais velho, tem doze anos de idade. Desapareceu quando o grupo ia chegando a Acarape.

Manuel (Duquinha) – É o filho caçula de Chico Bento e Cordulina; tem dois anos anos de idade. Foi doado à madrinha, Conceição.

Paulo – Irmão mais velho de Vicente, ele é o orgulho dos pais (pelo menos no início). Estudou, fez-se doutor (promotor) e casou-se na cidade com uma moça branca. Depois de casado, passou a dedicar o seu tempo à família, quase não se interessando mais pelos pais e pelos irmãos. Só então os pais deram valor a Vicente.

Mocinha – Irmã de Cordulina, ficou como empregada doméstica em Castro, na casa de sinhá Eugênia. Arranjou um filho sem pai e tudo indica que vai viver da prostituição.

Lourdinha – Irmã mais velha de Vicente. Casou-se com Clóvis Garcia em Quixadá. No final, têm uma filha, símbolo da felicidade que as pessoas simples e descomplicadas conseguem conquistar.

Alice – Irmã mais nova de Vicente. Mora na fazenda com os pais e os irmãos.

Dona Inácia – Avó de Conceição, espécie de mãe, pois foi quem a criou depois que a mãe verdadeira morreu. É dona da fazenda Logradouro, na região de Quixadá. Não aprova as idéias liberais da neta, principalmente no que diz respeito a ficar solteirona.

Dona Idalina – Prima de Dona Inácia. Idalina é a mãe de Vicente, Paulo, Alice e Lourdinha. Vive com o marido, Major, na fazenda perto de Quixadá.

Major – Fazendeiro rico na região de Quixadá. Entrega a administração da fazenda ao filho Vicente. Orgulha-se de ter um filho doutor: o Paulo, promotor em uma cidade do interior do Ceará.

Dona Maroca – Fazendeira, dona da fazenda Aroeiras na região de Quixadá. Na época da seca, mandou o vaqueiro, Chico Bento, soltar o gado e procurar, por conta própria, meios para sobreviver.

Mariinha Garcia – Moça bonita, de família rica, moradora de Quixadá. Com auxílio de Lourdinha e Alice, faz tudo para conquistar Vicente, mas as tentativas resultam inúteis.

Luís Bezerra – Compadre de Chico Bento e Cordulina. Trabalhara também nas Aroeiras sob o comando de Dona Maroca. Agora, é delegado em Acarape, povoado do interior do Ceará. Foi ele quem conseguiu passagens de trem para que a família do compadre chegasse a Fortaleza.

Doninha – Esposa de Luís Bezerra, madrinha do Josias, o filho de Chico Bento que morreu envenenado na estrada.

Zefinha – Filha do vaqueiro Zé Bernardo. Conceição, acreditando numa conversa que tivera com Chiquinha Boa, acha que Vicente tem um caso com Zefinha.

Chiquinha Boa – Trabalhava na fazenda de Vicente. Na época da seca, achando que o governo do Ceará estava ajudando os pobres que migravam para a capital, deixou a zona rural.

Enredo

A obra O Quinze aborda a seca de 1915, descreve alguns aspectos da vida do interior do Ceará durante um dos períodos mais dramáticos que o povo atravessou. O enredo é interessante, dramático, mostrando a realidade do Nordeste Brasileiro e se dá em dois planos.

No primeiro plano enfoca o vaqueiro Chico Bento e sua família, o outro a relação afetiva de Vicente, rude proprietário e criador de gado, e Conceição, sua prima culta e professora. Conceição é apresentada como uma moça que gosta de ler vários livros, inclusive de tendências feministas e socialistas o que estranha a sua avó, Mãe Nácia que é representante das velhas tradições. No período de férias, Conceição passava na fazenda da família, no Logradouro, perto do Quixadá. Apesar de ter 22 anos, não dizia pensar em casar, mas sempre se “engraçava” à seu primo Vicente. Ele era o proprietário que cuidava do gado, era rude e até mesmo selvagem. Com o advento da seca, a família de Mãe Nácia decide ir para cidade e deixar Vicente cuidando de tudo, resistindo. Trabalhava incessantemente para manter os animais vivos. Conceição, trabalhava agora no campo de concentração onde ficavam alojados os retirantes, e descobre que seu primo estava “de caso” com “uma caboclinha qualquer”. Enquanto ela se revolta, Mãe Nácia à consola dizendo:

“Minha filha, a vida é assim mesmo… Desde hoje que o mundo é mundo… Eu até acho os homens de hoje melhores.”

Vicente se encontra com Conceição e sem perceber confessa as temerosidades dela. Ela começa a tratá-lo de modo indiferente. Vicente se ressente disso e não consegue entender a razão. As irmã de Vicente armam um namoro entre ele e uma amiga, a Mariinha Garcia. Ele porém se espanta ao “saber” que estava namorando, dizendo que apenas era solícito para com ela e não tinha a menor intenção de comprometimento. Conceição percebe a diferença de vida entre ela e seu primo e a quase impossibilidade de comunicação. A seca termina e eles voltam para o Logradouro.

O segundo plano é, sem dúvida, a parte mais importante do livro. Apresenta a marcha trágica e penosa do vaqueiro Chico Bento com sua mulher e seus 5 filhos, representando os retirantes. Ele é forçado a abandonar a fazenda onde trabalhara. Junta algum dinheiro, compra mantimentos e uma burra para atravessar o sertão. Tinham o intuito de trabalhar no Norte, extraindo borracha. No percurso, em momento de grande fome, Josias, o filho mais novo, come mandioca crua, envenenando-se. Agonizou até a morte. O seu fim está bem descrito nessa passagem:

“Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra das mesma cruz.”

Uma cena marcante na vida do vaqueiro foi a de matar uma cabra e depois descobrir que tinha dono. Este o chamou de ladrão, e levou o resto da cabra para sua casa, dando-lhes apenas as tripas para saciarem. Léguas após, Chico Bento dá falta do seu filho mais velho Pedro. Chegando ao Aracape, lugar onde supunha que ele pudesse ser encontrado, avista um compadre que era o delegado. Recebem alguns mantimentos mas não é possível encontrar o filho. Ficam sabendo que o menino tinha fugido com comboeiros de cachaça. Notem:

“Talvez fosse até para a felicidade do menino. Onde poderia estar em maior desgraça do que ficando com o pai?”

Ao chegarem no campo de concentração, são reconhecidos por Conceição, sua comadre. Ela arranja um emprego para Chico Bento e passa a viver com um de seus filhos. Conseguem também uma passagem de trem e viajam para São Paulo, desistindo de trabalhar com a borracha.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Angústia – Graciliano Ramos- Resumo

Publicado em 1936, Angústia, de Graciliano Ramos, é dos romances mais ricos que a Literatura Brasileira produziu, pois consegue passear tanto pelo campo social, quanto pelo existencial, psicológico e até metalingüístico.

Primeiramente, pode-se interpretar a obra como reveladora da crise resultante da mudança de sistema, o que se vê pelas transformações que se processaram geração após geração, de Trajano, senhor de terras que fora poderoso, passando por seu filho, Camilo, que sedimenta a derrocada, terminando em Luís da Silva, o narrador, fruto de todo esse declínio.

Nesse contexto, o conflito que se estabelece entre o protagonista e Julião Tavares, este tomando daquele a posse da afeição de Marina, pode ser entendido como representação de uma nova ordem que se está estabelecendo e para a qual Luís da Silva estava completamente inadaptado.

Tal metamorfose abre caminho para um tema típico de Graciliano Ramos, que é a opressão, representada por Julião Tavares, descendente de uma família de ricos comerciantes, e que usa o dinheiro para conquistar mulheres, aproveitar-se delas e depois largá-las em meio à desonra sexual (antes mesmo de estabelecer seu relacionamento com Marina, Julião Tavares já carregava uma história escandalosa com outra moça pobre. Livrara-se do transtorno graças ao seu poder econômico).

Como oposição, Luís da Silva é o oprimido, tendo tudo em seu histórico caminhando para o seu rebaixamento. Além de ser preterido por Marina sem qualquer justificativa, tem um histórico de vida recheado de dificuldades. Com a morte do pai, vê-se desamparado, vivendo de favor de casa em casa. Parte, tornando-se retirante, chegando a dormir nos bancos de praça e a pedir esmolas. Até que vira um humilde funcionário público, o que lhe dá um equilíbrio precário, pois se atola em dívidas, aumentadas com as despesas iniciais para o parco enxoval do casamento que havia assumido. Mora numa casa decrépita em uma vizinhança mais decrépita ainda, exageradamente preocupada em cuidar da vida alheia. Tem como empregada uma senhora cheia de manias, que acompanha pelos jornais com paixão as chegadas e partidas de navios e enterra seus trocados no fundo do quintal (tal oposição fica bem simbolizada pelo relato que o narrador faz do comportamento dele e de Julião Tavares nos bancos do bonde. Este sempre tomava de forma desabrida mais de um lugar. Aquele fazia o máximo possível para não incomodar ninguém, chegando até a repousar de forma dolorosa meia nádega).

No entanto, Luís da Silva é um oprimido não de todo submisso. Por pressões de toda a sua criação e do histórico de vida, aprendeu a ser humilde; porém, tem a vontade de oprimir também, mas essa fica sufocada. Ainda assim, seu vocabulário e as opiniões que expressa sobre as pessoas revelam um caráter rude, amargo e, principalmente, déspota, denunciador de uma personalidade que remói uma decepção em relação ao meio em que vive e à sua existência (de uma certa forma, esses dois aspectos, o pessoal e o social, estão fortemente ligados).

Essa sua índole faz-nos desconfiar, portanto, dos ideais revolucionários (tênues, por sinal) que chega a alimentar. Tem a expectativa de que o socialismo, tão pregado por Moisés, um amigo judeu, efetive-se. Assim, Julião seria enforcado e Marina se dedicaria a trabalhos assistenciais. Na realidade, não há preocupação com justiça social, mas apenas desejo de desforra, de vingança. Tanto que o próprio narrador tem uma postura misantropa, achando-se superior à massa, ao proletariado, principalmente quanto ao domínio da linguagem. Outro argumento que põe em dúvida seus ímpetos socialistas é o fato de achar ruim Julião Tavares espalhar filhos pelo mundo e não ter juízo negativo quanto ao seu próprio avô, Trajano, que fez o mesmo entre as mulheres que andavam em suas terras.

Aliás, a preocupação com o domínio das técnicas de comunicação, principalmente a escrita, perpassa todo o romance. O narrador avalia as demais personagens pela relação que estabelecem com o código lingüístico. Marina tem sua futilidade em parte causada pelas leituras que realiza (seria uma referência a Luísa, de O Primo Basílio, romance de Eça de Queirós? Lembre-se de que é notória a ligação de Graciliano Ramos à literatura do grande escritor realista português). Julião Tavares possui linguagem empolada, dotada do formalismo oficial, excelente para expressar seu patriotismo vazio, retórico (referência ao Conselheiro Acácio, de O Primo Basílio?). Moisés não tem o Português como língua mãe, o que torna o seu falar carregado de sotaque e em momentos cheio de perífrases que substituem uma expressão exata que provavelmente não consegue encontrar. Seu Ramalho, pai de Marina, tem sempre as mesmas histórias, contadas da mesma forma, sem colorido.

No campo da linguagem, de fato, Graciliano Ramos constrói um romance muito bem sucedido. Tudo é de uma economia surpreendente, nada é desperdiçado, nada é gratuito, cada detalhe contribuindo para o sentido geral da obra. O vermelho da maquiagem de Marina, seus sapatos, suas roupas contribuem para que se vislumbre uma personagem por demais sensualizada, estouvada e vazia, já que se preocupa apenas com as aparências. As pulgas, percevejos e principalmente os ratos que infestam o ambiente em que mora o protagonista não só representam a situação falida em que se encontra, como também simbolizam o aspecto baixo, degradante das pessoas que o cercam, ou como ele as vê.

Mas a principal simbologia é aquela que antecipa (dentro da extrema economia do romance, há muitas simbologias que servem para antecipar fatos. Lembre-se da grávida em quem Luís da Silva esbarra na rua. É um elemento que funciona como uma premonição. Já ficamos preparados para a bombástica notícia da gravidez de Marina) o crime que será cometido no final da narrativa. Fala-se constantemente dos fios da companhia de energia elétrica ou então do cano que está vazando (aliás, as idéias de umidade, oleosidade e viscosidade, presentes em água, urina, saliva, suor, entre outros aspectos citados no romance, é muito comum na obra) na casa do protagonista ou, até de forma obsessiva, da cobra que se havia enroscado no pescoço de Trajano. Todos esses objetos estão ligados à corda que o pedinte Ivo dá para Luís da Silva, despertando neste, desejos homicidas.

Sua vontade será saciada. Sufocado com a idéia de ter sido abandonado, indignado com o fato de Marina ter sido largada pelo cortejador, o que apressou nela um processo de decadência que culminou até no recurso criminoso do aborto, o protagonista atinge o ponto de ebulição quando toma conhecimento de que Julião Tavares estava impunemente de caso novo. De maneira doentia vigia os passos do seu oponente, até que numa madrugada surpreende-o voltando da casa da amante recente. Com a corda, que não saía do seu bolso, estrangula-o. Deixa-o pendurado numa árvore, a simular um enforcamento.

Tal delito, como se percebe, mostrava-se fruto de uma angústia em que se via Luís da Silva. É interessante lembrar que esse sentimento, freudianamente, é resultado de um desejo sexual não realizado. Pode parecer extrapolação de interpretação, mas vale a pena lembrar que a sexualização é outro elemento recorrente na obra. A maneira como o protagonista deseja Marina atinge um nível quase insano. D. Mercedes, vizinha do narrador, é amásia de um figurão da sociedade, o que lhe garante seu sustento. Veste-se de forma chamativa, de forma a angariar a admiração de Marina. Um dos seus vizinhos, o mais recluso e apelidado de Lobisomem, é vítima da maledicência da rua, que o acusa de abusar de suas próprias filhas. Ou então a forma ruidosa – a ponto de toda a vizinhança ouvir – em que D. Rosália e seu marido faziam amor.

Toda essa erotização acumula-se de forma torturante em Luís da Silva, inspirando-lhe críticas moralistas as mais ácidas, mas que no fundo revelam ser recalques, ou seja, resultado de desejos não realizados. Tudo se torna uma bomba de efeito retardado, que, enquanto não é detonada, vai massacrando a existência do narrador, mergulhando-o numa verdadeira angústia obsessiva. Quando se pensa que é descarregada graças ao assassinato de Julião Tavares, descobre-se que a situação não está resolvida, pois o protagonista cai em outra tortura mental, um misto de culpa e medo de ser descoberto. Não tira mais da cabeça a idéia de conseguir perder a consciência. Cai, portanto, mais uma vez, na angústia, piorada pelo fato de não poder livrar-se de sua agonia.

Esse aspecto é tão forte a ponto de nortear a narrativa, que se mostra circular, não-linear (mas bastante coesa). Começa-se o livro em meio às reflexões de Luís da Silva, de mãos feridas, que não consegue realizar o seu serviço, pois em todo canto vê o rosto de Julião Tavares e se lembra do esganamento. Acompanhamo-lo, então, em seu mergulho na rememoração de todo o contexto que gerou o assassinato. É uma sondagem existencial que vai vasculhar a memória do narrador (o mais interessante é que, como dizia um crítico, quando realiza uma fuga para a infância, não percebe que está indo justamente na direção das causas de todos os seus problemas), o que faz de Angústia uma obra que antecipa o romance intimista ou o psicológico. Nesse ponto, é interessante ver como os fatos vão puxando outros e compondo, no final de uma narrativa impressionantemente em nada caótica, o todo de uma personalidade em que o aspecto psicológico interpenetra-se ao social.

É bastante significativo, quanto a essa técnica de efabulação, o modo em que o elemento exterior acaba-se misturando ao interior, comunicando-se. Veja como isso ocorre no trecho abaixo.

Não me continha: saía de casa e andava à toa por estas ruas, fatigando-me em caminhadas longas. O inverno tinha começado, quase sempre caía uma chuvinha renitente. Ia sentar-me num banco da Praça dos Martírios, e os pingos que tombavam da folhagem das árvores molhavam-me a cabeça descoberta e escaldada. A sentinela cochilava no portão do palácio. Ao pé do morro, pedaços da igreja fechada apareciam entre os ramos. Um barulho horrível de motores e rodas. Automóveis a roncar. Todos queimavam gasolina misturada com perfume. Depois um rádio começava a trovejar óperas. O cheiro e o som tornavam-se insuportáveis. Esforçava-me por esquecer o nariz e o ouvido, abria os olhos. A sentinela cochilava encostada ao fuzil. Serviço pau. Um pobre homem dormindo em pé. Acordava, escancarava a boca, via com tédio as grades do jardim, o hall deserto, a escada ao fundo, vermelha. O tapete vermelho da escada me dava impressão desagradável. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mudavam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Porque não aparecia uma terceira cor? Aquilo era irritante, mas o farol me atraía. Pelo menos variava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sentinela.

Nesse excerto, Luís da Silva está atormentado com a idéia de Marina ir de carro à ópera na companhia de Julião Tavares. As lembranças da moça vestida de forma chique e seu perfume misturando-se à gasolina do veículo, além do vermelho, cor predileta dela e sua marca registrada, vão-se fundir de forma obsessiva, ecoando em vários elementos da praça. O mundo externo, na verdade, passa a ser visto filtrado e reinterpretado pelo transtorno mental do narrador. Ou melhor, deturpado.

Essa confusão mental constrói-se de forma tão intensa que monta um processo de esquizofrenia no qual o protagonista extrapola na mistura entre realidade e imaginação, o que revela uma mente doente e massacrada pelo meio, já que, alijada do sistema a que pertence e de suas benesses, acaba se tornando aleijada. É o que se percebe no excerto a seguir.

“Como seria a cara de d. Albertina? Imaginei-a magra, pálida, séria, correta. Não havia motivo para Marina esconder os olhos.

– Faça o favor de descobrir o rosto. Não se acanhe. Tão natural!

Depois voltariam as regras.

– Dois meses? Perfeitamente. Agora a senhora toma precauções, usa isto, usa aquilo.

Exatamente como se Marina estivesse no consultório de um médico, sarjando um tumor. Nenhum sinal de crime ou de ação proibida. A seringa na água que borbulhava, um frasco sobre a mesa da cabeceira, quadros de anatomia nas paredes, a chama do álcool tremendo, a voz calma de d. Albertina a prescrever medidas de segurança. Uma senhora pálida e franzina, de rosto sereno e boas intenções.

– Não se acanhe. Fique à vontade.

Nenhuma alusão a qualquer espécie de falta. Direita, fria, falando baixinho, empregando termos escolhidos.

Mas porque era que d. Albertina, parteira diplomada, com longa prática, deveria ser assim e não de outra forma? Talvez fosse diferente. Os anúncios não valem nada, papel agüenta tudo (A desconfiança e a depreciação da linguagem escrita é um tema muito comum na obra de Graciliano Ramos. Lembre-se de que em Vidas Secas Fabiano pensa que as palavras difíceis (comuns na forma impressa), apesar de sedutoras, deviam esconder ladroagens. Paulo Honório, em São Bernardo, considerando-se homem prático, acha o discurso literário e seus “floreios” algo inútil. Luís da Silva não escapa dessa mitologia, o que é interessante, pois é uma personagem que está do outro lado da questão, já que domina o código impresso. Está acostumado a redigir textos agressivos com opiniões das quais não participa, muitas vezes até contraditórias entre si; fá-lo apenas porque está sendo pago. Por isso chega a pôr descrédito em relação ao que abstratamente se chama “opinião pública”, montada que é de uma forma tão inautêntica), como dizem os matutos. D. Albertina era uma velha gorda e mole, sem diploma nem prática, de óculos ordinários e hálito desagradável, mal-educada, resmungona. Marina estava deitada numa cama nojenta; nas paredes nojentas não havia gravuras de anatomia: havia quadros de santos, retratos coloridos, páginas de revistas. Sem lavar as mãos duras, de unhas compridas e negras, d. Albertina examinava brutalmente o corpo de Martina, arranhando-a,machucando-a, rosnando:

– Era melhor deixar-se de vergonhas e descobrir a cara. Quando andam na pândega, não têm esses luxos. E depois parem bem na bananeira. Feias coisas.

Mostrava os dentes amarelos de selvagem. Seria assim d. Albertina? A cliente mordia as cobertas sujas, continha a respiração, fechava os olhos, apertava as coxas e engolia o choro.

– Abras as pernas, criatura. Donde vêm esses dengues? Assim ninguém pode trabalhar.

O dinheiro do trabalho fora recebido adiantadamente. Marina dera nome falso e endereço errado, temendo a exploração de d. Albertina.

– Não vale a pena a senhora se incomodar. Eu apareço, compreende? Se houver necessidade, eu apareço.

– Quanto devo?

O homem cabeludo deu a conta. Joguei uns níqueis no balcão, disse frases sem sentido (…)”

É importante reparar como a imaginação de Luís da Silva, ao retratar a parteira que fará o aborto em Marina, oscila radicalmente entre o idealizado e o grotesco em questão de instantes, enquanto está no bar em frente, espionando sua ex-noiva em sua “consulta”. E o faz de maneira tão viva que é como se o imaginário fosse de fato real. Além disso, reforçando o que foi dito anteriormente, há ainda a mistura, no último discurso direto, entre o plano interno-imaginário (a quantia a ser paga pelo aborto) e o planto externo-real (a quantia a ser paga pela bebida).

Enfim, por todos esses motivos Angústia encaixa-se facilmente entre os tesouros que a Literatura Brasileira apresentou até agora, merecendo ser mais do que lido – tem de ser degustado em outras situações que não a sufocante em que todo vestibulando se encontra.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Infância – Graciliano Ramos

Publicado em 1945, Infância é uma autobiografia de Graciliano Ramos que prova ser possível uma obra somar os elementos pessoais com os sociais. Muito do que o autor confessa em suas memórias são problemas que afetaram não só a ele mesmo, mas também o seu meio. Sua dor é também a dor de nosso mundo.

Além disso, esse livro lida com elementos que nos fazem entendê-lo como base de todo o universo literário do autor. Nele vemos temáticas que vão povoar suas obras-primas: São Bernardo, Vidas Secas e Angústia.

O primeiro aspecto que chama a atenção é a descrição de Graciliano como uma criança oprimida e humilhada, pois é um ser fraco diante de adultos, mais fortes. Este é um dos cernes de sua visão de mundo: a opressão. Quem tem poder, naturalmente massacra, sufoca.

Também faz parte do seu escopo a secura das relações humanas. De acordo com a obra em questão, esse defeito já vem do seio da família. Sua mãe era extremamente ríspida, fria, o que se percebe pelos apelidos com os quais se dirigia a Graciliano Ramos: cabra-cega (por causa de uma doença que teve nos olhos que impossibilitava sua visão) e bezerro-encourado (bovino órfão que recebia o couro de um outro, já morto, para que a mãe deste, enganada pelo cheiro, permitisse a amamentação do desprestigiado).

Outro ponto perturbado na relação familiar é seu pai, que se mostra extremamente autoritário, déspota e tirano em muitos momentos. O episódio em que surra o filho por achar que este havia sumido com um cinturão (descobre depois que a acusação era falsa) é dos mais dramáticos. Talvez só perca para o momento em que esse autoritarismo se mistura a abuso de poder e injustiça em cima do mendigo Venta-Romba. Discretamente o narrador procura uma justificativa, como os problemas financeiros do pai, mas o estrago na confiança no ser humano já era irremediável.

A situação do protagonista é, portanto, de constante opressão. Mesmo quando não se faz de forma explicitamente violenta, realiza-se por meio dos risos e gozações extremamente humilhantes. Até seu processo de alfabetização é angustiante. Nasce aqui o escritor pessimista, amargo, desencantado com o mundo.

No entanto, sua salvação, ou pelo menos válvula de escape, vai-se manifestar na literatura. Acometido pela doença que o fez ficar temporariamente cego e preso em seu quarto, desperta para o encantamento das palavras, analisando-as, namorando-as, principalmente nas cantigas folclóricas entoadas por sua mãe durante os trabalhos domésticos. Um salto maior surge no contato com a enorme biblioteca de Jerônimo Barreto, que permitiu ao garoto ampliar seus horizontes para um mundo diferente da mesquinharia em que havia crescido. E o escritor nasce com o apoio de Mário Venâncio.

Liberto, graças à literatura, distancia-se da infância. Entra no universo dos adultos. Parte para o mundo. Vai torto, desajeitado, mas firme, resoluto. Sua arte de manejar as palavras será sua arma. Por demais eficiente.

A seguir, segue-se um resumo dos capítulos que compõem a obra.
Nuvens

Este capítulo, em meio às nuvens em que está mergulhado o passado mais remoto do narrador, é uma pequena súmula de toda a obra. Flagra-se a personagem descrevendo os pais não como seres humanos, mas como seres ineficientes na afetividade, secos e opressores. A animalização na descrição deles é constante. A literatura, na forma de cantigas folclóricas, é apresentada como elemento capaz de aliviar o cotidiano sufocante da criança Graciliano Ramos.
Manhã

Retomam-se temas do capítulo anterior, ligados à opressão a que é submetido o protagonista. Abre-se especial atenção aos seus avôs, o paterno muito culto e o materno forte, rude, não civilizado. Há destaque para a descrição da natureza do sertão.
Verão

Com a chegada do verão, vem a seca. A Natureza, pois, é descrita como aplacadora, mais um elemento opressor em sua infância, tanto que lhe causa uma sede terrível em certa ocasião. Neste capítulo o pai é apresentado com uma figura explosiva, uma qualidade que o narrador só vai entender muito tempo depois, quando toma consciência das dificuldades econômicas pelas quais o velho passava.
Um Cinturão

Capítulo fortíssimo. O pai, muitas vezes descrito de forma fria como “o homem”, não encontra seu cinturão. Inquire Graciliano, que, assustado, não consegue falar nada. Descarrega sua raiva surrando a criança. “Aliviado”, ao voltar para a rede acaba descobrindo o objeto que tanto procurava. Nota-se que a intenção do agressor é reparar o erro, mas sentimentos devem ter-se misturado, como orgulho, vaidade e medo de perder a autoridade. Talvez um desses elementos, ou todos, justifiquem o fato de o pai hesitar (queria pedir desculpas?) e acabar voltando para a rede e dormir. A conseqüência desse episódio é grave: Graciliano ganha uma desconfiança em relação à justiça dos homens.
Uma Bebedeira

Graciliano e sua família estão fazendo visita. Ganha destaque neste capítulo o incômodo que as roupas de visita provocam na personagem, principalmente os sapatos. Lembra o capítulo “Festa”, de Vidas Secas, do mesmo autor. É relevante também a presença das mulheres da casa visitada, que trarão um bem-estar excessivo, quase erótico, ao menino. Elas é que acabam embebedando-o. O álcool, dominando-o, dá-lhe sensação de poder, fazendo-o ter certas liberdades, desafiando o olhar repressor de sua mãe.
Chegada à Vila

A família de Graciliano larga o campo e se desloca para a vila, descrita como um mundo estranho para o menino. Fica abismado com o ajuntamento de casas, pela falta de espaço e mais ainda quando vê um sobrado, ou, no seu entender, uma casa em cima da outra.
A Vila

Continua a descrição abismada que faz das pessoas e do modo de vida da vila.
Vida Nova

Na Vila, o pai do narrador torna-se comerciante, o que o mergulhará em várias dificuldades. É neste capítulo que o protagonista fala de seu medo de fantasmas, o que o faz dormir num colchãozinho na sala. Dedica-se, nas madrugadas, a prestar atenção ao ruídos dos sapos, que, em sua linguagem, falariam das mesmas opressões que o menino vivencia em sua tosca infância.
Padre João Inácio

Este capítulo dedica-se à descrição do Padre João Inácio, extremamente rude com seus fiéis. No entanto, mostrou-se extremamente dedicado a doentes graves. Torna-se personagem dura, mas admirável. Dessa forma, Graciliano acaba aprendendo que certas pessoas têm em sua rispidez apenas uma casca que envolve um caráter humano.
O Fim do Mundo

Outro capítulo que nos surpreende apresentando uma personagem grosseira mostrando um lado humano. Dessa vez é a mãe do protagonista, que, após ler um texto religioso sobre o fim do mundo, mergulha em um desespero imenso. Abraça-se ao filho e desmancha-se em choro. Incrível é notar como pessoas tão massacradas têm, ainda assim, um apego à existência e ao mundo injusto em que vivem.
O Inferno

Aqui se revela o ingrediente que serviu de base para o capítulo “Inferno”, de Vidas Secas. Graciliano pergunta à mãe o que é o Inferno. Ao ouvir a explicação dela, faz questionamentos baseados na lógica e na curiosidade. Se os diabos agüentavam o fogo do Inferno e se as pessoas condenadas passavam a eternidade ardendo lá, então, no seu entender infantil, elas transformavam-se em demônios. Além disso, pergunta se a mãe já havia estado no Inferno. Diante da negativa, pergunta então como ela sabia as características do Profundo. Ela responde, então, que se baseava no que haviam dito os padres, homens de muito estudo. A mesma indagação: eles estiveram lá? Diante de mais uma negação, o garoto mostra-se incrédulo diante da existência do Inferno, o que lhe vale uma surra de chinelo. Apanha porque questiona, o que pode ser entendido por desrespeito. Apanha porque a força é o último argumento – falho, por sinal – quando todos os outros não funcionam.
O Moleque José

Descrição de um garoto que trabalhava para o pai do protagonista. Mais pobre, revela, no entanto, superioridade em relação ao narrador, pois tem mais experiência de vida e maior conhecimento de mundo. O capítulo encerra-se com o relato de um episódio em que o pai resolve descarregar sua raiva castigando José. Graciliano, num misto de burrice e sadismo, sentimentos disfarçados na vontade de ajudar na punição, resolve ferir o pé da vítima. O pai, diante de ato tão vergonhoso, pára de bater em José e transfere sua fúria para o filho.
Um Incêndio

Outro capítulo em que aparece o raciocínio lógico contra o religioso. Guiado pelo moleque José, Graciliano vai ver um incêndio que destruiu a moradia de gente pobre. É quando se depara com algo asqueroso: um cadáver carbonizado. Era de uma mulher que havia entrado em sua casa em chamas para salvar um quadro de Nossa Senhora. Não entende como a santa havia permitido que tal acontecesse. Não aceita nem mesmo a alegação de que deveriam ser os desígnios divinos, ou então que agora a vítima estava salva, no Paraíso. Termina a narrativa amaldiçoando a divindade e o moleque José por terem feito provocado tanto mal-estar nele diante de uma cena tão escabrosa.
José da Luz

Autoridade policial da vila, José da Luz proporciona uma excelente experiência para o protagonista. O medo que sente dele transforma-se em amizade, pois é alguém que tem tempo e disposição para conversar com Graciliano, sem intenção de massacre ou humilhação. É, pois, quem o aproxima da espécie humana.
Leitura

O pai de Graciliano convence-o (numa forma que o deixa desconfiado, pois usa um discurso manso) a se alfabetizar, alegando que isso iria permitir com que tomasse posse de uma arma poderosíssima. Num primeiro instante, o narrador mostra-se incrédulo. Mas a descrença é rapidamente substituída pela angústia, pois a aprendizagem é feita de forma dolorosa, violenta e sufocante, pois não respeita o ritmo e o universo cultural do menino. Mas é apenas o início de uma longa agonia.
Escola

A agonia de Graciliano aumenta na escola, onde continuará seu problemático processo de alfabetização. Há aqui, assim como nos capítulos seguintes, uma crítica moderníssima ao sistema educacional: como ensinar eficientemente, se o que é apresentado aos alunos está muito distante da realidade deles. Esse elemento fica claramente representado na forma “ter-te-ão”, pedra que aparece no caminho do protagonista. Fica pasmo diante de uma palavra que não tem noção do que seja. O mais absurdo é que nem sua professora sabe do que se trata.
D. Maria

Capítulo dedicado à descrição da primeira professora de Graciliano, mulher limitada em seus conhecimentos, mas que, com seu jeito meigo, atencioso e compreensivo, perdoando os erros dos alunos, acaba tornando-se um oásis no difícil processo de aprendizagem do protagonista.
O Barão de Macaúbas

Vencida, a muito custo, a primeira fase de alfabetização, Graciliano passa para um novo estágio, em que tem de mexer com um livro de leitura do Barão de Macaúbas. Este capítulo contém fortes críticas à ineficiência e inadequação dos métodos de ensino. Há também um saboroso ataque à literatura em voga, dotada de uma linguagem rebuscada, como um cipoal no qual o leitor-menino acabava se enroscando e sofrendo cada vez mais. É impagável o seguinte trecho, excelente resumo do que está sendo exposto: “e a mosca usava adjetivos colhidos no dicionário” (é sabido que o estilo de Graciliano Ramos é extremamente enxuto, seco, econômico. Dessa forma, o rebuscamento de linguagem de suas primeiras leituras é o extremo oposto do seu fazer literário. É também interessante lembrar que o estilo a que se dirige a crítica provavelmente deve ter sido influenciado pela escola literária que fazia sucesso na passagem dos séculos XIX para o XX, momento em que o autor estava no colégio: Parnasianismo).
Meu Avô

Este capítulo apresenta o avô da personagem dedicando-se a ajudar na alfabetização de Graciliano. No entanto, realiza seu trabalho de uma forma toda torta, pois sua rispidez traumatiza mais ainda a criança. Aliás, torta é a relação entre os dois, pois mistura elementos díspares. Sua rispidez é a maneira de ser afetivo. Seu incentivo à leitura vai por um processo desincentivador.
Cegueira

Momento doloroso na vida de Graciliano. Acometido por uma doença que inchava seus olhos, inflamando-os, ficava impossibilitado de enxergar. Cego, mergulhado em dores terríveis, acaba por ficar preso a seu quarto. Introspectivo, recorda o apelido com o qual era chamado até por sua própria mãe: cabra-cega. Não fica irritado com o nome em si, mas com o que essa palavra fazia lembra, pois era usada em uma trova infantil que terminava com obscenidade. E ao recordar essa alcunha, lembrava a outra que sua mãe usava (é incrível a sinceridade ríspida com que a mãe de Graciliano se dirigia a ele. Mas isso não se restringia aos apelidos. Não escondia a impaciência e, muitas vezes, asco com relação à doença do filho), bezerro-encourado, pois as roupas que o menino usavam não tinham caimento perfeito nele, ficando sempre folgadas. Mais uma vez, fica chateado com as conotações, pois tal bezerro era empurrado para a vaca. Estabelecia-se, pois, referência ao fato de Graciliano não ser aceito por sua mãe, de ser um enjeitado. Seu alívio surge quando, no clímax do desamparo em meio à escuridão da cegueira, desperta, graças às cantigas folclóricas que ouve de sua mãe durante as lidas domésticas, uma atenção e uma paixão pelas palavras. Começa a nascer o escritor.
Chico Brabo

Mais aprendizados o protagonista vai ter em relação ao caráter humano, dessa vez proporcionados por um seu vizinho, Chico Brabo. Socialmente, na rua, era uma pessoa de extrema amabilidade. No entanto, uma outra personalidade era revelada quando essa gentil personagem se fechava em sua casa. Na escuridão de sua cegueira, Graciliano de forma angustiada podia ouvir os gritos de Chico Brabo e, muitas vezes, a surra que dava no seu empregado, um garoto chamado João. Além disso, chama a atenção a estranha relação que se estabelecia entre opressor e oprimido, como se um fosse necessário ao outro. Havia o conflito, as pancadas surdas e depois tudo voltava ao normal, como se nada tivesse acontecido – Chico amável, João brincalhão.
José Leonardo

Descrição de uma personagem que se destoa da galeria apresentada até aqui. Basta lembrar que é comparada a um relógio, pois é justo, calmo, equilibrado, limpo. É um ser que até poderia ser considerado progressista em relação aos demais.
Minha Irmã Natural

Este capítulo serve para amesquinhar o caráter do pai de Graciliano. Em primeiro lugar, o velho sente-se diminuído por ter espalhado poucos filhos no mundo, limitado que era por sua condição econômica. Era como se o seu papel de macho fosse reduzido. E dentro desses poucos relacionamentos anteriores ao casamento havia nascido a irmã natural do autor, sempre tratada de forma distante e respeitosa pelos demais familiares. Até o momento em que a menina iniciou namoro. Ganha ferrenha oposição do pai, mas está apaixonada. Foge de casa para se unir ao seu amor. O narrador deixa subentendida a idéia de que fora a saída de que o pai mais tinha gostado, pois poupava-o das despesas matrimoniais.
Antônio Vale

Este capítulo tematiza as dificuldades que o pai do protagonista tem em relação ao comércio, pois algumas mercadorias não vendem muito, outras estão micadas, além de haver o problema dos clientes caloteiros. Destaque é dado a Antônio Vale, homem com fama de não pagar suas dívidas, mas com quem o pai do narrador estabelece negócio. Diante do atraso do pagamento, o comerciante mergulha na agonia, maldizendo o sujeito com quem estabeleceu transação. A situação piora quando tem conhecimento de que o homem está para partir. Mas ocorre um anticlímax humilhante: Antônio Vale surge apenas para cumprir a sua palavra e pagar seus débitos.
Mudança

Diante da enorme dificuldade financeira, o pai do narrador desiste de ser comerciante, abandona a vila e volta para Viçosa, tentar ser novamente agricultor.
Adelaide

Graciliano volta à escola, agora de D. Maria do O, personagem que, assim como sua família, servirá para o narrador descarregar um surpreendente racismo. É neste capítulo que se apresenta a prima Adelaide. Quase órfã, pois fora “abandonada” por sua família à instituição educacional, é humilhada pela professora e suas parentas, que jogam a menina em serviços domésticos, sem nem mesmo levarem em conta as amplas e fartas contribuições que os pais da garota dedicam ao colégio.
Um Enterro

Graciliano, na ocasião do enterro de um coleguinha, visita pela primeira vez um cemitério. Tudo para ele e seus companheiros é motivo de festa. Esquecem até que aquele ambiente povoava as histórias de assombração. Talvez isso se explique por essas narrativas passarem-se à noite, enquanto eles o adentravam durante o dia. No entanto, uma mudança drástica se processa. O narrador afasta-se do grupo e pára num lugar em que eram depositados ossos. É uma experiência terrível, pois acaba se tocando do futuro de todo ser humano. Desperta-se na personagem um pesado sentimento niilista.
Um Novo Professor

Graciliano muda de novo de escola. E mais uma vez derrama racismo, só que agora discreto. Seu novo professor é um mulato caracterizado como “pachola” e dotado de trejeitos afeminados. Gasta horas diante de um espelho, numa crise de vaidade terrível. Se está contente com seu cabelo, que temporariamente se mostra domado, tem um desempenho paciente como professor. Mas quando não está contente com as melenas ou com o tom da pele, torna-se extremamente rígido. No entanto, o elemento mais ácido está no irmão do professor, que um dia surgiu num desabafo, aparentemente para as paredes, de que tinha um lugar na sociedade. Provavelmente fora desrespeitado. Fica nas entrelinhas a idéia de que ele, o irmão, assim como Maria do O, eram personagens que lutavam por um espaço num meio preconceituoso, que empurrava os negros para a miséria e a marginalização.
Um Intervalo

Este capítulo é de fato um “intermezzo”. Graciliano realiza uma tentativa eclesiástica, servindo de coroinha. Mas seu desempenho é um desastre, o que o afasta dessas atividades. No entanto, ganha amizade com as mulheres ligadas a esse meio, o que gera um certo alívio a seu cotidiano tão massacrante.
Os Astrônomos

Num rasgo de bondade, o pai de Graciliano começou a acompanhá-lo na leitura de um livro. O menino fazia essa tarefa aos tropeços, mas tinha um apoio, algo de que acabou gostando. Mas a generosidade era apenas fase. De cabeça quente com os negócios, não mais se interessou no brinquedo do menino, deixando-o frustrado. Pede a ajuda, pouco depois, a sua parenta Emília, que questiona por que não fazia a tarefa sozinho. Incentiva-o, pois, nesse desafio, dizendo que a leitura era uma coisa maravilhosa. Usa até uma metáfora que o garoto acha exagerada: os astrônomos são capazes de ler maravilhas no céu. Mesmo discordando da imagem (a figura de linguagem estava muito acima da capacidade intelectual do protagonista), entrega-se à tarefa, que se vai revelando suadamente prazerosa. Mas, ao contrário dos astrônomos, vai-se dedicar a textos em que consiga se identificar, como atesta o final do capítulo: “Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes”.
Samuel Smiles

Mais um passo importantíssimo. Graciliano tem agora um novo professor, homem que demonstra autoridade por ter domínio de conhecimento. Tanto que corrige a leitura do protagonista quando lê a palavra “Smiles”. Apesar de “smailes” ir contra todo o conjunto de valores do menino, a segurança, a firmeza da retificação foi argumento eficiente. Tanto que quando lê essa palavra diante dos trabalhadores do seu pai, não se importa mais com as risadas deles. Antes o afetavam. Agora, tem a convicção do conhecimento, da sabedoria. Eles é que estavam errados, nas trevas da ignorância. Está protegido.
O Menino da Mata e o seu Cão Piloto

Graciliano dedica-se à leitura de um livro, “O Menino da Mata e o seu Cão Piloto”, apesar da crítica depreciativa de Emília, que se baseou apenas no fato de o autor da obra ser protestante. Por um instante o narrador balança em seu desejo de conhecer a obra, mas no fundo sente não haver lógica em tal critério. Dedica-se ao volume, mas sai frustrado, pois as personagens morrem. Não houve compensação da dor da vida que levava. Pelo contrário, ocorreu aguçamento. Por isso chora.
Fernando

Este capítulo apresenta uma personagem protegida do coronelismo que existia na região: Fernando. Por causa disso, dedica-se a inúmeras maldades e crimes, até mesmo abusando sexualmente de várias mulheres. Torna-se, aos olhos do narrador, o monstro, o vilão. Mas é alguém que vai proporcionar ao garoto mais uma experiência sobre o caráter humano. Houve um momento em que haviam desmontado um caixote. O vilão acaba dando uma bronca nos trabalhadores, porque estes haviam deixado várias tábuas no chão e uma delas podia, com seus pregos expostos, ferir o pé de uma criança desavisada.
Jerônimo Barreto

Graciliano havia esgotado seu diminuto universo de leituras. Como aumentá-lo? É aconselhado a pedir ajuda a Jerônimo Barreto, dono de uma vasta biblioteca. É tocante a humildade com que, com estranha desenvoltura, o menino faz seu pedido. É tocante também o cuidado que tem com o livro (o primeiro volume fora O Guarani, de José de Alencar), embrulhando a capa em papel, tomando cuidado até para não amassar as páginas. E o resultado também é tocante: o universo cultural do garoto vai ser imensamente ampliado. Tanto que leva vantagem na escola. Sempre tinha notas mais baixas nas provas, pelas já conhecidas dificuldades em relação ao estudo, enquanto os outros alunos se destacavam. No entanto, esses decoravam informações que após a prova eram esquecidas. Um dia, o professor aplicou uma prova surpresa e o pouco que Graciliano conhecia tornou-se muito em relação aos outros alunos. Poderia ser um conhecimento que não se encaixava integralmente ao currículo, mas era algo que impunha respeito. O protagonista já estava, pois, derrubando seus obstáculos, graças à leitura.
Venta-Romba

Este capítulo é irmão de “Um Cinturão”. Nele, ficamos sabendo que o pai de Graciliano Ramos havia sido escolhido para juiz substituto. Torna-se, portanto, uma autoridade. Em certo dia, um mendigo, Venta-Romba, entra inadvertidamente na casa do protagonista, chega até a sala para pedir esmola. Causa tumulto. A mãe rispidamente pede para que ele se retire. O pobre fica atrapalhado, sem reação, estático. Foi pior, pois aquilo foi interpretado como uma afronta. Imediatamente chega o pai, com um soldado, determinando a prisão do invasor. A pífia figura apenas pergunta o porquê de o doutor estar fazendo aquilo, o porquê de estar sendo preso. Mal-estar. Mas não havia como voltar atrás. Tinha que se demonstrar autoridade. E o coitado foi levado para a prisão. A partir desse episódio, aumentou a desconfiança do protagonista nas autoridades e na justiça. E também foi a partir daí que se tornou um filho desafiador e desrespeitador.
Mário Venâncio

Outro passo importantíssimo para a libertação de Graciliano. Graças à influência de Mário Venâncio, entra para uma sociedade teatral. Cria-se uma escola dramática. Além disso, faz parte de um jornal literário, o Dilúculo. Esse termo, que significa “alvorada”, lembra as palavras-jóias do Parnasianismo. E de fato a linguagem dos demais redatores é por demais rebuscada, decepcionando o narrador. Era o que estava na moda na época, o que o fazia sentir vergonha de não gostar dela, muito menos dos textos e dos temas várias vezes abordados. Mas intui que está com a razão. Traz imbuídas as mudanças modernistas. Nasce, aqui, o escritor.
Seu Ramiro

Como juiz substituto, o pai de Graciliano sente-se na obrigação de hospedar constantemente pessoas. Uma delas, no seu raciocínio pragmático, poderia trazer-lhe dividendos políticos e econômicos. É por causa disso que acaba conhecendo Seu Ribeiro, homem que inspirava autoridade e que viera para implantar uma sede maçônica em Viçosa. Até o pai embarca nessa empreitada. Mas decepciona-se, muito provavelmente porque o sujeito desaparecera, devendo ao comerciante uma considerável soma em dinheiro.
A Criança Infeliz

Este capítulo conta a apresentação de uma personagem que consegue ser mais desgraçada que o narrador. Ninguém lhe tem respeito, nem mesmo sua família. Seu pai o espancava constantemente, sob a alegação de que não prestava. Na escola, era isolado e quem se aproximava dele era execrado. Até o professor se dirigia a ele de maneira claramente ofensiva. O motivo para tamanha aversão não fica claro. Apenas algo fica no ar, quando se diz que os garotos mais velhos é que se comunicavam com ele e por meio de um código secreto. E, como produto de todo esse meio massacrante, acaba por se tornar um bandido da pior espécie e dono da várias mulheres. É na casa de uma delas que termina por ser assassinado pelos seus inimigos.
Laura

Laura é o nome da famosíssima musa de Petrarca, o que cria toda a imagem da mulher como um ser puro e sublime. Coincidência ou não, esse é o nome da paixão que Graciliano vai ter na escola. E ela marca as mudanças que o próprio protagonista sente em seu corpo. Esta crescendo. O ponto mais interessante é sua iniciação sexual, meio atrapalhada, com Otília. Deixa de lado aquela idealização provocada pela figura de Laura. Tanto que o livro O Cortiço, que tinha escondido por detrás de sua prateleira, depois de conhecido os caminhos da carne, é retirado de sua reclusão e posto à frente. Já não está mais na infância.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Os abalos sofridos pelo povo brasileiro em torno dos acontecimentos de 1930, a crise econômica provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, a crise cafeeira, a Revolução de 1930, o acelerado declínio do nordeste condicionaram um novo estilo ficcional, notadamente mais adulto, mais amadurecido, mais moderno que se marcaria pela rudeza, por uma linguagem mais brasileira, por um enfoque direto dos fatos, por uma retomada do naturalismo, principalmente no plano da narrativa documental, temos também o romance nordestino, liberdade temática e rigor estilístico.

Os romancistas de 30 caracterizavam-se por adotarem visão crítica das relações sociais, regionalismo ressaltando o homem hostilizado pelo ambiente, pela terra, cidade, o homem devorado pelos problemas que o meio lhe impõe.

Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu em Quebrângulo, Alagoas. Estudou em Maceió, mas não cursou nenhuma faculdade. Após breve estada no Rio de Janeiro como revisor dos jornais “Correio da Manhã e A Tarde”, passou a fazer jornalismo e política elegendo-se prefeito em 1927.

Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu “Memórias do Cárcere”, um sério depoimento sobre a realidade brasileira. Depois do cárcere morou no Rio de Janeiro. Em 1945, integrou-se no Partido Comunista Brasileiro.

Graciliano estreou em 1933 com “Caetés”, mas é São Berdado, verdadeira obra prima da literatura brasileira. Depois vieram “Angustia” (1936) e Vidas Secas (1938) inspirando-se em Machado de Assis.

Podemos justificar isto com passagens do texto:
“Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos.”
“A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas”
“Resolvera de supetão aproveitá-lo (papagaio) como alimento…”
“Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores”.
ESTUDO DOS PERSONAGENS

Baleia – cadela da família, tratado como gente, muito querido pelas crianças.
Sinhá Vitória – mulher de Fabiano, sofrida, mãe de 2 filhos, lutadora e inconformada com a miséria em que vivem, trabalha muito na vida.
Fabiano – nordestino pobre, ignorante que desesperadamente procura trabalho, bebe muito e perde dinheiro no jogo.
Filhos – crianças pobres sofridas e que não tem noção da própria miséria que vivem.
Patrão – contratou Fabiano para trabalhar em sua fazenda, era desonesto e explorava os empregados.
Outros personagens: o soldado, seu Inácio (dono do bar).
ESTUDO DA LINGUAGEM

Tipo de discurso: indireto livre
Foco narrativo: terceira pessoa

Adjetivos, figuras de linguagem:
Metáfora: ” – você é um bicho, Fabiano”.
Prosopopéia: compara Baleia como gente
ANÁLISE DAS IDÉIAS

Comentário Crítico:

Esse livro retrata fielmente a realidade brasileira não só da época em que o livro foi escrito, mas como nos dias de hoje tais como injustiça social, miséria, fome, desigualdade, seca, o que nos remete a idéia de que o homem se animalizou sob condições sub-humanas de sobrevivência.

RESUMO DA OBRA

Mudança

Em meio à paisagem hostil do sertão nordestino, quatro pessoas e uma cachorrinha se arrastam numa peregrinação silenciosa _ _ . O menino mais velho, exausto da caminhada sem fim, deita-se no chão, incapaz de prosseguir, o que irrita Fabiano, seu pai, que lhe dá estocadas com a faca no intuito de fazê-lo levantar. Compadecido da situação do pequeno, o pai toma-o nos braços e carrega-o, tornando a viagem ainda mais modorrenta _ .

A cadela Baleia acompanha o grupo de humanos agora sem a companhia do outro animal da família, um papagaio, que fora sacrificado na véspera a fim de aplacar a fome que se abatia sobre aquelas pessoas. Na verdade, era um papagaio estranho, que pouco falava, talvez porque convivesse com gente que também falava pouco _ _ .

Errando por caminhos incertos, Fabiano e família encontram uma fazenda completamente abandonada. Surge a intenção de se fixar por ali. Baleia aparece com um preá entre os dentes, causando grande alegria aos seus donos. Haveria comida. Descendo ao bebedouro dos animais, em meio à lama, Fabiano consegue água. Há uma alegria em seu coração, novos ventos parecem soprar para a sua família. Pensa em Seu Tomás da bolandeira. Pensa na mulher e nos filhos.

A inesperada caça é preparada, o que garante um rápido momento de felicidade ao grupo. No céu, já escuro, uma nuvem – sempre um sinal de esperança. Fabiano deseja estabelecer-se naquela fazenda. Será o dono dela. A vida melhorará para todos _ .

Fabiano

Em vão Fabiano procura por uma raposa. Apesar do fracasso da empreitada, ele está satisfeito. Pensa na situação da família, errante, passando fome, quando da chegada àquela fazenda. Estavam bem agora _ _ . Fabiano se orgulha de vencer as dificuldades tal qual um bicho. Agora ele era um vaqueiro, apesar de não ter um lugar próprio para morar. A fazenda aparentemente abandonada tinha um dono, que logo aparecera e reclamara a posse do local. A solução foi ficar por ali mesmo, servindo ao patrão, tomando conta do local. Na verdade, era uma situação triste, típica de quem não tem nada e vive errante. Sentiu-se novamente um animal, agora com uma conotação negativa. Pouco falava, admirava e tentava imitar a fala difícil das pessoas da cidade. Era um bicho _ .

A uma pergunta de um dos filhos, Fabiano irrita-se. Para que perguntar as coisas? Conversaria com Sinha Vitória sobre isso. Essas coisas de pensamento não levavam a nada. Seu Tomás da bolandeira, apesar de admirado por Fabiano pelas suas palavras difíceis, não acabara como todo mundo? As palavras, as idéias, seduziam e cansavam Fabiano.

Pensou na brutalidade do patrão, a tratá-lo como um traste. Pensou em Sinha Vitória e seu desejo de possuir uma cama igual à de Seu Tomás da bolandeira. Eles não poderiam ter esse luxo, cambembes que eram. Sentiu-se confuso. Era um forte ou um fraco, um homem ou um bicho _ ? Sentia, por vezes, ímpeto de lutador e fraqueza de derrotado.

Lembrando dos meninos, novamente, achou que, quando as coisas melhorassem, eles poderiam se dar ao luxo daquelas coisas de pensar. Por ora, importante era sobreviver. Enquanto as coisas não melhorassem, falaria com Sinha Vitória sobre a educação dos pequenos.

Cadeia

Fabiano vai à feira comprar mantimentos, querosene e um corte de chita vermelha. Injuriado com a qualidade do querosene e com o preço da chita, resolve beber um pouco de pinga na bodega de seu Inácio. Nisso, um soldado amarelo convida-o para um jogo de cartas. Os dois acabam perdendo, o que irrita o soldado, que provoca Fabiano quando esse está de partida. A idéia do jogo havia sido desastrosa. Perdera dinheiro, não levaria para casa o prometido. Fabiano, agora, pensava em como enganar Sinha Vitória, mas a dificuldade de engendrar um plano o atormentava.

O soldado, provocador, encara o vaqueiro e barra-lhe a passagem. Pisa no pé de Fabiano que, tentando contornar a situação à sua maneira, agüenta os insultos até o possível, terminando por xingar a mãe do soldado amarelo. Destacamento à sua volta. Cadeia. Fabiano é empurrado, humilhado publicamente.

No xadrez, pensa por que havia acontecido tudo aquilo com ele. Não fizera nada, se quisesse até bateria no mirrado amarelo, mas ficara quieto. Em meio a rudes indagações, enfureceu-se, acalmou-se, protestou inocência _ . Amolou-se com o bêbado e com a quenga que estavam em outra cela. Pensou na família. Se não fosse Sinha Vitória e as crianças, já teria feito uma besteira por ali mesmo. Quando deixaria que um soldadinho daqueles o humilhasse tanto? Arquitetou vinganças, gritou com os outros presos e, no meio de sua incompreensão com os fatos, sentiu a família como um peso a carregar _ .

Sinha Vitória

Naquele dia, Sinha Vitória amanhecera brava. A noite mal dormida na cama de varas era o motivo de sua zanga. Falara pela manhã, mais uma vez, com Fabiano sobre a dificuldade de dormir naquela cama. Queria uma cama de lastro de couro, como a de Seu Tomás da bolandeira, como a de pessoas normais.

Havia um ano que discutia com o marido a necessidade de uma cama decente e, em meio a uma briga por causa das “extravagâncias” de cada um, Sinha Vitória certa vez ouviu Fabiano dizer-lhe que ela ficava ridícula naqueles sapatos de verniz, caminhando como um papagaio, trôpega, manca. A comparação machucou-a _ .

Agora, ela irritava-se com o ronco de Fabiano ao lembrar-se de suas palavras. Circulando pela casa, fazia suas tarefas em meio a reza e a atenção ao que acontecia lá fora. Por pensar ainda na cama e na comparação maldosa de Fabiano, quase esqueceu de pôr água na comida. Veio-lhe a lembrança do bebedouro em que só havia lama. Medo da seca. Olhou de novo para seus pés e inevitavelmente achou Fabiano mau _ . Pensou no papagaio e sentiu pena dele _ .

Lá fora, os meninos brincavam em meio à sujeira. Dentro de casa, Fabiano roncava forte, seguro, o que indicava a Sinha Vitória que não deveria haver perigo algum por ali. A seca deveria estar longe _ . As coisas, agora, pareciam mais estáveis, apesar de toda a dificuldade. Lembrou-se de como haviam sofrido em suas andanças. Só faltava uma cama. No fundo, até mesmo Fabiano queria uma cama nova.

O Menino mais novo

A imagem altiva do pai foi que lhe fez surgir a idéia. Fabiano, armado como vaqueiro, domava a égua brava com o auxílio de Sinha Vitória. O espetáculo grosseiro excitava o menor dos garotos, impressionado com a façanha do pai e disposto a fazer algo que também impressionasse o irmão mais velho e a cachorra Baleia _ . No dia seguinte, acordou disposto a imitar a façanha do pai. Para tanto, quis comunicar a intenção ao mano, mas evitou, com medo de ser ridicularizado.

Quando as cabras foram ao bebedouro, levadas pelo menino mais velho e por Baleia, o pequeno tomou o bode como alvo de sua ação. Sentia-se altivo como Fabiano quando montava. No bebedouro, o garoto despencou da ribanceira sobre o animal, que o repeliu. Insistente, tentou se aprumar mas foi sacudido impiedosamente, praticando um involuntário salto mortal que o deixou, tonto, estatelado ao chão. O irmão mais velho ria sem parar do ridículo espetáculo, Baleia parecia desaprovar toda aquela loucura _ . Fatalmente seria repreendido pelos pais. Retirou-se humilhado, alimentando a raivosa certeza de que seria grande, usaria roupas de vaqueiro, fumaria cigarros e faria coisas que deixariam Baleia e o irmão admirados.

O Menino mais velho

Aquela palavra tinha chamado a sua atenção: inferno. Perguntou à Sinha Vitória, vaga na resposta. Perguntou a Fabiano, que o ignorou. Na volta à Sinha Vitória, indagou se ela já tinha visto o inferno. Levou um cascudo e fugiu indignado. Baleia fez-lhe companhia tentando alegrá-lo naquela hora difícil.

Decidiu contar à cachorrinha uma história, mas o seu vocabulário era muito restrito, quase igual ao do papagaio que morrera na viagem _ . Só Baleia era sua amiga naquele momento. Por que tanta zanga com uma palavra tão bonita ? A culpa era de Sinha Terta, que usara aquela palavra na véspera, maravilhando o ouvido atento do garoto mais velho.

Olhou para o céu e sentiu-se melancólico. Como poderiam existir estrelas? Pensou novamente no inferno. Deveria ser, sim, um lugar ruim e perigoso, cheio de jararacas e pessoas levando cascudos e pancadas com a bainha da faca _ . Sempre intrigado, abraçou-se à Baleia como refúgio _ .

Inverno

Todos estavam reunidos em volta do fogo, procurando aplacar o frio causado pelo vento e pela água que agitava a paisagem fora da casa. Chegara o inverno, e isso reunia a família próxima à fogueira. Pai e mãe conversavam daquele jeito de sempre, estranho, e os meninos, deitados, ficavam ouvindo as histórias inventadas por Fabiano, de feitos que ele nunca tinha realizado, aventuras nunca vividas. Quando o mais velho levantou-se para buscar mais lenha, foi repreendido severamente pelo pai, aborrecido pela interrupção de sua narrativa.

A chuva dava à família a certeza de que a seca não chegaria por enquanto. Isso alegrava Fabiano. Sinha Vitória, porém, temia por uma inundação que os fizesse subir ao morro, novamente errantes. A água, lá fora, ampliava sua invasão.

Fabiano empolgava-se mais ainda em contar suas façanhas _ . A chuva tinha vindo em boa hora. Após a humilhação na cidade, decidira que, com a chegada da seca, abandonaria a família e partiria para a vingança contra o soldado amarelo e demais autoridades que lhe atravessassem o caminho. A chegada das águas interrompera aqueles planos sinistros. Em meio à narrativa empolgada, Fabiano imaginava que as coisas melhorariam a partir dali; quem sabe, Sinha Vitória até pudesse ter a cama tão desejada.

Para o filho mais novo, o escuro e as sombras geradas pela fogueira faziam da imagem do pai algo grotesco, exagerado. Para o mais velho, a alteração feita por Fabiano na história que contava era motivo de desconfiança. Algo não cheirava bem naquele enredo _ . Sempre pensativo, o menino mais velho dormiu pensando na falha do pai e nos sapos que estariam lá fora, no frio.

Baleia, incomodada com a arenga de Fabiano, procurava sossego naquela paisagem interior. Queria dormir em paz, ouvindo o barulho de fora _ .

Festa

A família foi à festa de Natal na cidade. Todos vestidos com suas melhores roupas, num traje pouco comum às suas figuras, o que lhes dava um ar ridículo. A caminhada longa tornava-se ainda mais cansativa por causa daquelas roupas e sapatos apertados. O mal-estar era geral, até que Fabiano cansou-se da situação e tirou os sapatos, metendo as meias no bolso, livrando-se ainda do paletó e da gravata que o sufocava. Os demais fizeram o mesmo. Voltaram ao seu natural. Baleia juntou-se ao grupo _ .

Chegando à cidade, foram todos lavar-se à beira de um riacho antes de se integrarem à festa. Sinha Vitória carregava um guarda-chuva. Fabiano marchava teso. Os meninos maravilham-se, assustados, com tantas luzes e gente. A igreja, com as imagens nos altares, encantou-os mais ainda. O pai espremia-se no meio da multidão, sentindo-se cercado de inimigos. Sentia-se mangado por aquelas pessoas que o viam em trajes estranhos à sua bruta feição. Ninguém na cidade era bom. Lembrou-se da humilhação imposta pelo soldado amarelo quando estivera pela última vez na cidade.

A família saiu da igreja e foi ver o carrossel e as barracas de jogos. Como Sinha Vitória negou-lhe uma aposta no bozó, Fabiano afastou-se da família e foi beber pinga _ . Embriagando-se, foi ficando valente. Imaginava, com raiva, por onde andava o soldado amarelo. Queria esganá-lo. No meio da multidão, gritava, provocava um inimigo imaginário _ . Queria bater em alguém, poderia matar se fosse o caso _ . Vez ou outra, interrompia suas imprecações para uma confusa reflexão. Cansado do seu próprio teatro, Fabiano deitou no chão, fez das suas roupas um travesseiro e dormiu pesadamente.

Sinha Vitória, aflita, tinha que olhar os meninos, não podia deixar o marido naquele estado. Tomando coragem para realizar o que mais queria naquele momento, discretamente esgueirou-se para uma esquina e ali mesmo urinou. Em seguida, para completar o momento de satisfação, pitou num cachimbo de barro pensando numa cama igual à de seu Tomas da bolandeira .

Os meninos também estavam aflitos. Baleia sumira na confusão de pessoas, e o medo de que ela se perdesse e não mais voltasse era grande. Para alívio dos pequenos, a cachorrinha surge de repente e acaba com a tensão. Restava, agora, aos pequenos, o maravilhamento com tudo de novo que viam. O menor perguntou ao mais velho se tudo aquilo tinha sido feito por gente. A dúvida do maior era se todas aquelas coisas teriam nome. Como os homens poderiam guardar tantas palavras para nomear as coisas _ ?

Distante de tudo, Fabiano roncava e sonhava com soldados amarelos.

Baleia

Pêlos caídos, feridas na boca e inchaço nos beiços debilitaram Baleia de tal modo que Fabiano achou que ela estivesse com raiva. Resolveu sacrificá-la. Sinha Vitória recolheu os meninos, desconfiados, a fim de evitar-lhes a cena.

Baleia era considerada como um membro da família, por isso os meninos protestaram, tentando sair ao terreiro para impedir a trágica atitude do pai. Sinha Vitória lutava com os pequenos, porque aquilo era necessário, mas aos primeiros movimentos do marido para a execução, lamentou o fato de que ele não tivesse esperado mais para confirmar a doença da cachorrinha.

Ao primeiro tiro, que pegou o traseiro da cachorra e inutilizou-lhe uma perna, as crianças começaram a chorar desesperadamente.

Começou, lá fora, o jogo estratégico da caça e do caçador. Baleia sentia o fim próximo, tentava esconder-se e até desejou morder Fabiano. Um nevoeiro turvava a visão da cachorrinha, havia um cheiro bom de preás. Em meio à agonia, tinha raiva de Fabiano, mas também o via como o companheiro de muito tempo. A vigilância às cabras, Fabiano, Sinha Vitória e as crianças surgiam à Baleia em meio a uma inundação de preás que invadiam a cozinha _ . Dores e arrepios. Sono. A morte estava chegando para Baleia.

Contas

Fabiano retirava para si parte do que rendiam os cabritos e os bezerros. Na hora de fazer o acerto de contas com o patrão, sempre tinha a sensação de que havia sido enganado. Ao longo do tempo, com a produção escassa, não conseguia dinheiro e endividava-se.

Naquele dia, mais uma vez Fabiano pedira a Sinha Vitória para que ela fizesse as contas. O patrão, novamente, mostrou-lhe outros números. Os juros causavam a diferença, explicava o outro. Fabiano reclamou, havia engano, sim senhor, e aí foi o patrão quem estrilou. Se ele desconfiava, que fosse procurar outro emprego. Submisso, Fabiano pediu desculpas e saiu arrasado, pensando mesmo que Sinha Vitória era quem errara.

Na rua, voltou-lhe a raiva. Lembrou-se do dia em que fora vender um porco na cidade e o fiscal da prefeitura exigira o pagamento do imposto sobre a venda. Fabiano desconversou e disse que não iria mais vender o animal. Foi a uma outra rua negociar e, pego em flagrante, decidiu nunca mais criar porcos _ .

Pensou na dificuldade de sua vida. Bom seria se pudesse largar aquela exploração. Mas não podia! Seu destino era trabalhar para os outros, assim como fora com seu pai e seu avô.

As notas em sua mão impressionavam-no. “Juros”, palavra difícil que os homens usavam quando queriam enganar os outros. Era sempre assim: bastavam palavras difíceis para lograr os menos espertos. Contou e recontou o dinheiro com raiva de todas aquelas pessoas da cidade. Sinha Vitória é que entendia seus pensamentos.

Teve vontade de entrar na bodega de seu Inácio e tomar uma pinga. Lembrou-se da humilhação passada ali mesmo e decidiu ir para casa. o céu, várias estrelas. Deixou de lado a lembrança dos inimigos e pensou na família. Sentiu dó da cachorra Baleia. Ela era um membro da família.

O Soldado Amarelo

Procurando uma égua fugida, Fabiano meteu-se por uma vereda e teve o cabresto embaraçado na vegetação local. Facão em punho, começou a cortar as quipás e palmatórias que impediam o prosseguimento da busca. Nesse momento, depara-se com o soldado amarelo que o humilhara um ano atrás _ . O cruzar de olhos e o reconhecimento durou fração de segundos. O suficiente para que Fabiano esfolasse o inimigo. O soldado claramente tremia de medo. Também reconhecera o desafeto antigo e pressentia o perigo.

Fabiano irritou-se com a cena. O outro era um nadica. Poderia matá-lo com as mãos, sem armas, se quisesse. A fragilidade do outro aos poucos foi aplacando a raiva de Fabiano. Ponderou que ele mesmo poderia ter evitado a noite na cadeia se não tivesse xingado a mãe do amarelo. No meio daquela paisagem isolada e hostil, só os dois, e se ele pedisse passagem ao soldado? Aproximou-se do outro pensando que já tinha sido mais valente, mais ousado. Na verdade, na fração de segundo interminável Fabiano ia descobrindo-se amedrontado. Se ele era um homem de bem, para que arruinar a sua vida matando uma autoridade? Guardaria forças para inimigo maior.

Sentindo o inimigo acovardado, o soldado ganhou força. Avançou firme e perguntou o caminho. Fabiano tirou o chapéu numa reverência e ainda ensinou o caminho ao amarelo.

O Mundo Coberto de Penas

A invasão daquele bando de aves denunciava a chegada da seca. Roubavam a água do gado, matariam bois e cabras. Sinha Vitória inquietou-se. Fabiano quis ignorar, mas não pôde; a mulher tinha razão. Caminhou até o bebedouro, onde as aves confirmavam o anúncio da seca. Eram muitas. Um tiro de espingarda eliminou cinco, seis delas, mas eram muitas. Fabiano tinha certeza, agora, de uma nova peregrinação, uma nova fuga.

Era só desgraça atrás de desgraça. Sempre fugido, sempre pequeno. Fabiano não se conformava, pensava com raiva no soldado amarelo, achava-se um covarde, um fraco. Irado, matou mais e mais aves. Serviriam de comida, mas até quando ? Quem sabe a seca não chegasse…Era sempre uma esperança. Mas o céu escuro de arribações só confirmava a triste situação _ . Elas cobriam o mundo de penas, matando o gado, tocando a ele e à família dali, quem sabe comendo-os.

Recolheu os cadáveres das aves e sentiu uma confusão de imagens em sua cabeça. Aquele lugar não era bom de se viver. Lembrou-se de Baleia, tentou se convencer de que não fizera errado em matá-la, pensou de novo na família e no que as arribações representavam. Sim, era necessário ir embora daquele lugar maldito _ . Sinha Vitória era inteligente, saberia entender a urgência dos fatos.

Fuga

O céu muito azul, as últimas arribações e os animais em estado de miséria indicavam a Fabiano que a permanência naquela fazenda estava esgotada. Chegou um ponto em que, dos animais, só sobrou um bezerro, que foi morto para servir de comida na viagem que se faria no dia seguinte.

Partiram de madrugada, abandonando tudo como encontraram. O caminho era o do sul. O grupo era o mesmo que errava como das outras vezes. Fabiano, no fundo, não queria partir, mas as circunstâncias convenciam-no da necessidade.

A vermelhidão do céu, o azul que viria depois assustavam Fabiano _ . Baleia era uma imagem constante em seus confusos pensamentos. Sinha Vitória também fraquejava. Queria, precisava falar _ . Aproximou-se do marido e disse coisas desconexas, que foram respondidas no mesmo nível de atrapalhação.

Na verdade, ele gostou que ela tivesse puxado conversa. Ela tentou animar o marido, quem sabe a vida fosse melhor, longe dali, com uma nova ocupação para ele. Marido e mulher elogiam-se mutuamente; ele é forte, agüenta caminhar léguas, ela, tem pernas grossas e nádegas volumosas, agüenta também. A cidade, talvez, fosse melhor. Até uma cama poderiam arranjar. Por que haveriam de viver sempre como bichos fugidos _ ?

Os meninos, longe, despertavam especulações ao casal. O que seriam quando crescessem? Sinha Vitória não queria que fossem vaqueiros. O cansaço ia chegando à medida que avançava a caminhada, e assim houve uma parada para descanso. Novamente marido e mulher conversavam, fazendo planos, temendo o mau agouro das aves que voavam no céu.

Sinha Vitória acordou os pequenos, que dormiam, e seguiu-se viagem. Fabiano ainda admirou a vitalidade da mulher. Era forte mesmo! Assim, a cada passo arrastado do grupo um mundo de novas perspectivas ia sendo criado. Sinha Vitória falava e estimulava Fabiano. Sim, deveria haveria uma nova terra, cheia de oportunidades, distante do sertão a formar homens brutos e fortes como eles.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto

Gênese e história da obra

Morte e Vida Severina foi escrito em 1954/55, por encomenda de Maria Clara Machado, então diretora do grupo O Tablado, que não pôde levar ao palco a peça. Publicado inicialmente no livro Duas Águas (1956), o texto foi finalmente montado pelo grupo do TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), dirigido por Roberto Freire e Silnei Siqueira, com música de Chico Buarque de Holanda, e obteve sucesso mundial numa turnê em 1966. A partir daquele ano, passou a integrar o volume Poemas em Voz Alta, que reúne a parcela mais comunicativa da obra do “poeta engenheiro”.

As duas águas de João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto (Recife, 1920) dividiu sua obra em duas “águas”, duas facetas como as do telhado de uma casa: a primeira seria a da comunicação restrita, elaborada e de difícil consumo; a segunda, uma poesia mais popular, de compreensão mais imediata, de comunicação com um público mais amplo e menos cultivado. Nesta última se incluem os seus “poemas em voz alta”, que foram escritos para serem lidos a um público ouvinte. O poema dramático Morte e Vida Severina com certeza pertence à segunda ”água”, pois, embora tenha algumas características fundamentais do poeta cerebral que é João Cabral como o rigor formal da metrificação variada e aproximativa e das rimas toantes e o “falar com coisas”, a utilização de imagens contundentes e concretas foi escrito com o intuito de alcançar um público maior e recorre a diversas fontes da poesia popular na sua elaboração.

Um Auto de Natal Pernambucano – influências

O subtítulo do livro revela seu débito aos autos sacramentais da tradição ibérica medieval, dos quais herda o teor poético e alegórico, assim como uma tendência à justaposição das cenas e à sátira dos costumes. Além de se inspirar na antiga poesia narrativa ibérica, os romances, João Cabral reelabora parodicamente, nas cenas do presépio final a poesia do folclore pernambucano. Outra influência clara na concepção do livro é o Regionalismo de 30, com sua preocupação realista de observação, crítica e dunúncia social que podemos encontrar em autores como José Américo de Almeida, Rachel de Queirós e, principalmente, Graciliano Ramos.

O enredo: da morte à vida severina

A inversão do sintagma “vida e morte” no título da peça demonstra o percurso do retirante Severino: parte da morte no Sertão para encontrar a vida em Recife. Severino acompanha o rio Capibaribe e só vai encontrando pobreza e morte pelo caminho. Chegando a Recife, foz do rio, o mesmo se repete. Desesperançado, pensa em cometer suicídio atirando-se ao rio, quando testemunha o nascimento de uma criança que devolve a esperança à vida severina. Tanto morte quanto vida são “severinas”, adjetivo neológico formado a partir do nome próprio, pois ambas se aplicam a todos os “severinos” quase anônimos do Sertão nordestino.

Estrutura geral

Morte e Vida Severina se divide em 18 cenas ou fragmentos poéticos, todos precedidos por um título explicativo de seu conteúdo, praticamente resumos do que encontramos nos poemas em si. Podemos separá-los em dois grandes gupos: as primeiras 12 cenas descrevem a peregrinação de Severino. Trata-se do Caminho ou Fuga da Morte. Nesta parte o poeta habilmente alterna monólogos de Severino com diálogos que trava ou escuta no caminho; as últimas 6 cenas apresentam O Presépio ou O Encontro com a Vida, em que é descrito o nascimento do filho de José, mestre carpina, em clara alusão ao nascimento de Jesus.

As cenas da morte

1- Severino se apresenta. Tem dificuldades para se diferenciar dos outros “severinos”, pois são “iguais em tudo na vida”. Este Severino representa a todos.

2. Conversa com dois homens carregando um defunto numa rede.

3. Teme se perder porque o rio Capibaribe secou com o verão.

4- Ouve cantarem excelências para um defunto dentro de uma casa, enquanto um homem, do lado de fora, vai ironizando as palavras dos cantadores.

5 Cansado da viagem e desiludido, pensa interrompê-la por algum tempo e procurar trabalho ali onde se encontra.

6. Dirige-se a uma mulher na janela em busca de trabalho, mas esta, rezadeira, diz que por lá não há serviço para lavradores como ele, só para quem lida profissionalmente com a morte.

7 .Chega, maravilhado, à Zona da Mata, região de vegetação mais rica, que o faz pensar, outra vez, em interromper a viagem.

8. Assiste ao enterro de um lavrador e ouve os amigos do morto dizerem, com ironia, que agora sim este tinha a sua terra, a terra da cova rasa.

9. Cercado pela morte, resolve apressar os passos para chegar logo a Recife, na esperança de uma mudança para melhor.

10. Chegando a Recife, senta-se para descansar ao pé do muro de um cemitério e ouve, sem ser notado, a conversa pessimista de dois coveiros.

11. Desiludido, aproxima-se de um dos cais do Capibaribe e pensa em se atirar ao rio para acabar de vez com seu sofrimento.

12. Conversa com José, mestre carpina, morador de um dos mocambos à margem do rio, e lhe pergunta se não é melhor se atirar logo ao rio e à morte.

O presépio: encontro com a vida

13. Uma mulher, da porta da casa de José, anuncia-lhe que seu filho nascera.

14. Os vizinhos, os amigos, duas ciganas, etc. cantam em louvor ao menino.

15. Falam as pessoas que trazem presentes de todos os tipos e de todos os cantos de Pernambuco para o recém-nascido.

16. Falam as duas ciganas que haviam aparecido com os vizinhos. Uma prevê uma vida enlameada de pescador pobre, outra de operário um pouco menos pobre.

17. Todos cantam a beleza do recém-nascido. Beleza da novidade, da vida que se multiplica e renova, incansável.

18. O carpina responde à pergunta que Severino fizera, reafirmando o valor da vida, mesmo que seja “severina”.

Resumo

Severino é um retirante: ele é como muitos outros e que está partindo para o litoral, fugindo da seca, da morte. A vida na Capital parece mais atraente, mais “vida”, menos “severina”. Em suas andanças, entretanto, Severino se depara a todo momento não com a vida, mas sim com o que já conhece como coisa vulgar: a morte e o desespero que a cerca.

Em seu primeiro encontro com ela, o retirante topa com dois homens carregando um defunto até sua última morada. Durante uma conversa, descobre que o pobre coitado havia sido assassinado e que o motivo fora ter querido expandir um pouco suas terras, que praticamente não eram produtíveis. O retirante segue sua viagem e percebe que na região onde se encontra, nem o rio Capibaribe – seco no verão – consegue cumprir o seu papel. Severino sente medo de não conseguir chegar ao seu destino.

Escuta, então, uma cantoria e, aproximando-se, vê que está sendo encomendado um defunto. Pela primeira vez, Severino pensa em interromper sua “descida” para o litoral e procurar trabalho naquela vila. Ao dirigir-se a uma mulher, descobre que tudo que sabe fazer não serve ali, e o único trabalho existente e lucrativo é o que ajuda na morte: médico, rezadeira, farmacêutico, coveiro. E o lucro é certo nessas profissões, pois não faltam fregueses, uma vez que ali a morte também é coisa vulgar.

Se não há como trabalhar, mais uma vez Severino retoma seu rumo e chega à Zona da Mata, onde novamente pensa em interromper sua viagem e se fixar naquela terra branda e macia, tão diferente da solo do Sertão. Mais do que isso: começou a acreditar que não via ninguém porque a vida ali deveria ser tão boa, que todos estavam de folga e que ninguém deveria conhecer a morte em vida, a vida severina. Ilusão de quem está à procura do paraíso: logo Severino assiste ao enterro de um trabalhador de eito e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério. Severino se dá conta que ali as privações são as mesmas que ele conhece bem e que também a única parte que pode ser sua daquela terra é uma cova para sepultura, nada mais .

O retirante resolve então apressar o passo para chegar logo ao Recife. Severino senta-se para descansar ao pé de um muro alto e ouve uma conversa. É mais uma vez a morte rondando, são dois coveiros que lhe dão a má notícia: toda a gente que vai do Sertão até ali procurando morrer de velhice, vai na verdade é seguindo o próprio enterro, pois logo que chegam, são os cemitérios que os esperam .

Severino nunca quis muito da vida, mas está desiludido: esperava encontrar trabalho, trabalho duro mas agora – desespero! – já se imagina um defunto como aqueles que os coveiros descreviam, faltava apenas cumprir seu destino de retirante.

Nesse momento, aproxima-se de Severino seu José, mestre carpina, morador de um dos mocambos que havia entre o cais e a água do rio. O retirante, desesperançado, revela ao mestre carpina sua intenção de suicídio, de se jogar naquele rio e ter uma mortalha “macia e líquida”. Se José tenta convencer Severino que ainda vale a pena lutar pela vida, mesmo que seja vida severina. Mas Severino não vê mais diferença entre vida e morte e lança a pergunta: “que diferença faria/ se em vez de continuar/tomasse melhor saída:/a de saltar, numa noite,/ fora da ponte e da vida?”

Da porta de onde havia saído o mestre carpina, surge uma mulher, que grita uma notícia. Um filho nascera, o filho de seu José! Chegam vizinhos, amigos, pessoas trazendo presentes ao recém-nascido. Vêm também duas ciganas, que fazem a previsão do futuro do menino: ele crescerá aprendendo com os bichos e no futuro trabalhará numa fábrica, lambuzado de graxa e, quem sabe, poderá morar num lugar um pouco melhor.

Severino assiste ao movimento, ao clima de euforia com a vinda do menino. O carpina se aproxima novamente do retirante e reata a conversa que estavam levando. Diz que não sabe a resposta da pergunta feita, mas, melhor que palavras, o nascimento da criança podia ser uma resposta: a vida vale a pena ser defendida.

Trechos do Poema:

1- O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

– O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

2 – ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA REDE, AOS GRITOS DE “Ó IRMÃOS DAS

ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUEM MATEI NÃO!”

A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.
A um defunto de nada,
irmão das almas,
que há muitas horas viaja
à sua morada.
E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
Severino Lavrador,
irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
– E de onde que o estais trazendo,
irmãos das almas,
onde foi que começou
vossa jornada?
– Onde a Caatinga é mais seca,
irmão das almas,
onde uma terra que não dá
nem planta brava.
– E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
– Até que não foi morrida,
irmão das almas,
esta foi morte matada,
numa emboscada.
– E o que guardava a emboscada,
irmão das almas
e com que foi que o mataram,
com faca ou bala?
– Este foi morto de bala,
irmão das almas,
mas garantido é de bala,
mais longe vara.
– E quem foi que o emboscou,
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
– Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
sempre há uma bala voando
desocupada.
– E o que havia ele feito
irmãos das almas,
e o que havia ele feito
contra a tal pássara?
– Ter um hectare de terra,
irmão das almas,
de pedra e areia lavada
que cultivava.
– Mas que roças que ele tinha,
irmãos das almas
que podia ele plantar
na pedra avara?
– Nos magros lábios de areia,
irmão das almas,
os intervalos das pedras,
plantava palha.
– E era grande sua lavoura,
irmãos das almas,
lavoura de muitas covas,
tão cobiçada?
– Tinha somente dez quadras,
irmão das almas,
todas nos ombros da serra,
nenhuma várzea.
– Mas então por que o mataram,
irmãos das almas,
mas então por que o mataram
com espingarda?
– Queria mais espalhar-se,
irmão das almas,
queria voar mais livre
essa ave-bala.
– E agora o que passará,
irmãos das almas,
o que é que acontecerá
contra a espingarda?
– Mais campo tem para soltar,
irmão das almas,
tem mais onde fazer voar
as filhas-bala.
– E onde o levais a enterrar,
irmãos das almas,
com a semente do chumbo
que tem guardada?
– Ao cemitério de Torres,
irmão das almas,
que hoje se diz Toritama,
de madrugada.
– E poderei ajudar,
irmãos das almas?
vou passar por Toritama,
é minha estrada.
– Bem que poderá ajudar,
irmão das almas,
é irmão das almas quem ouve
nossa chamada.
– E um de nós pode voltar,
irmão das almas,
pode voltar daqui mesmo
para sua casa.
– Vou eu que a viagem é longa,
irmãos das almas,
é muito longa a viagem
e a serra é alta.
– Mais sorte tem o defunto
irmãos das almas,
pois já não fará na volta
a caminhada.
– Toritama não cai longe,
irmãos das almas,
seremos no campo santo
de madrugada.
– Partamos enquanto é noite
irmãos das almas,
que é o melhor lençol dos mortos
noite fechada.

3 – O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR POR SEU GUIA, O RIO CAPIBARIBE,

– Antes de sair de casa
aprendi a ladainha
das vilas que vou passar
na minha longa descida.
Sei que há muitas vilas grandes,
cidades que elas são ditas;
sei que há simples arruados,
sei que há vilas pequeninas,
todas formando um rosário
cujas contas fossem vilas,
de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
até o mar onde termina,
saltando de conta em conta,
passando de vila em vila.
Vejo agora: não é fácil
seguir essa ladainha;
entre uma conta e outra conta,
entre uma e outra ave-maria,
há certas paragens brancas,
de planta e bicho vazias,
vazias até de donos,
e onde o pé se descaminha.
Não desejo emaranhar
o fio de minha linha
nem que se enrede no pêlo
hirsuto desta caatinga.
Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.
Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina
e no verão também corta,
com pernas que não caminham.
Tenho que saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Mas não vejo almas aqui,
nem almas mortas nem vivas;
ouço somente à distância
o que parece cantoria.
Será novena de santo,
será algum mês-de-Maria;
quem sabe até se uma festa
ou uma dança não seria?

4 – NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO

UM HOMEM, DO LADO DE FORA, VAI PARODIANDO A PALAVRAS DOS CANTADORES

– Finado Severino,
quando passares em Jordão
e o demônios te atalharem
perguntando o que é que levas…
– Dize que levas cera,
capuz e cordão
mais a Virgem da Conceição.
– Finado Severino, etc…
– Dize que levas somente
coisas de não:
fome, sede, privação.
– Finado Severino, etc…
– Dize que coisas de não,
ocas, leves:
como o caixão, que ainda deves.
– Uma excelência
dizendo que a hora é hora.
– Ajunta os carregadores
que o corpo quer ir embora.
– Duas excelências…
-…dizendo é a hora da plantação.
– Ajunta os carreadores…
-…que a terra vai colher a mão.

5 – CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA INTERROMPÊ-LA POR UNS INSTANTES E PROCURAR

TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA.

– Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida,
e é ainda mais severina
para o homem que retira).
Penso agora: mas por que
parar aqui eu não podia
e como Capibaribe
interromper minha linha?
ao menos até que as águas
de uma próxima invernia
me levem direto ao mar
ao refazer sua rotina?
Na verdade, por uns tempos,
parar aqui eu bem podia
e retomar a viagem
quando vencesse a fadiga.
Ou será que aqui cortando
agora minha descida
já não poderei seguir
nunca mais em minha vida?
(será que a água destes poços
é toda aqui consumida
pelas roças, pelos bichos,
pelo sol com suas línguas?
será que quando chegar
o rio da nova invernia
um resto de água no antigo
sobrará nos poços ainda?)
Mas isso depois verei:
tempo há para que decida;
primeiro é preciso achar
um trabalho de que viva.
Vejo uma mulher na janela,
ali, que se não é rica,
parece remediada
ou dona de sua vida:
vou saber se de trabalho
poderá me dar notícia.

6 – DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS, DESCOBRE TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ

– Muito bom dia, senhora,
que nessa janela está;
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?
– Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?
– Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má;
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.
– Isso aqui de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?
– Também lá na minha terra
de terra mesmo pouco há;
mas até a calva da pedra
sinto-me capaz de arar.
– Também de pouco adianta,
nem pedra há aqui que amassar;
diga-me ainda, compadre,
que mais fazias por lá?
– Conheço todas as roças
que nesta chã podem dar;
o algodão, a mamona,
a pita, o milho, o caroá.
– Esses roçados o banco
já não quer financiar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia lá?
– Melhor do que eu ninguém
sei combater, quiçá,
tanta planta de rapina
que tenho visto por cá.
– Essas plantas de rapina
são tudo o que a terra dá;
diga-me ainda, compadre
que mais fazia por lá?
– Tirei mandioca de chãs
que o vento vive a esfolar
e de outras escalavras
pela seca faca solar.
– Isto aqui não é Vitória
nem é Glória do Goitá;
e além da terra, me diga,
que mais sabe trabalhar?
– Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear;
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.
– Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
– Em qualquer das cinco tachas
de um bangüê sei cozinhar;
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.
– Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já;
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?
– Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá;
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.
– Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.
– Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.
– Essa vida por aqui
é coisa familiar;
mas diga-me retirante,
sabe benditos rezar?
sabe cantar excelências,
defuntos encomendar?
sabe tirar ladainhas,
sabe mortos enterrar?
– Já velei muitos defuntos,
na serra é coisa vulgar;
mas nunca aprendi as rezas,
sei somente acompanhar.
– Pois se o compadre soubesse
rezar ou mesmo cantar,
trabalhávamos a meias,
que a freguesia bem dá.
– Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como senhora, comadre,
pode manter o seu lar?
– Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.
– E ainda se me permite
que volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?
– É, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.
– E ainda se me permite
mais outra vez indagar:
é boa essa profissão
em que a comadre ora está?
– De um raio de muitas léguas
vem gente aqui me chamar;
a verdade é que não pude
queixar-me ainda de azar.
– E se pela última vez
me permite perguntar:
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?
– Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.
Imagine que outra gente
de profissão similar,
farmacêuticos, coveiros,
doutor de anel no anular,
remando contra a corrente
da gente que baixa ao mar,
retirantes às avessas,
sobem do mar para cá.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazemos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear

7 – O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM.

– Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm água vitalícia.
Cacimbas por todo lado;
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina;
somente ali à distância
aquele bueiro de usina;
somente naquela várzea
um bangüê velho em ruína.
Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
e aquele cemitério ali,
branco de verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.

8 -ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE

O LEVARAM AO CEMITÉRIO

– Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
– É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
– Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
– É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
– É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
– É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.
– Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
– Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
– Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
– Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
– Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
– Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
– Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
– Será de terra
a tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
– Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
– Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
– Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
– Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.
– Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
– Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo)
– Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
– Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
– Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos)
– Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).
– Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
– Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
– Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
– Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
– Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
– Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.
– Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
– Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
– Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
– Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.
– Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
– Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
– Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha,
– Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.
– Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
– De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito à viração.
– Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
– E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
– Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
– Se abre o chão e te envolve,
como mulher com que se dorme

9 – O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE

– Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça;
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta;
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.
Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia;
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre com
a mesma chama mortiça.
Agora é que compreendo
por que em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vive a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter,
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia;
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.

10 – CHEGANDO AO RECIFE O RETIRANTE SENTA-SE PARA DESCANSAR AO PÉ DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE, SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS

– O dia hoje está difícil;
não sei onde vamos parar.
Deviam dar um aumento,
ao menos aos deste setor de cá.
As avenidas do centro são melhores,
mas são para os protegidos:
há sempre menos trabalho
e gorjetas pelo serviço;
e é mais numeroso o pessoal
(toma mais tempo enterrar os ricos).
– pois eu me daria por contente
se me mandassem para cá.
Se trabalhasses no de Casa Amarela
não estarias a reclamar.
De trabalhar no de Santo Amaro
deve alegrar-se o colega
porque parece que a gente
que se enterra no de Casa Amarela
está decidida a mudar-se
toda para debaixo da terra.
– É que o colega ainda não viu
o movimento: não é o que se vê.
Fique-se por aí um momento
e não tardarão a aparecer
os defuntos que ainda hoje
vão chegar (ou partir, não sei).
As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,
são como o porto do mar;
não é muito ali o serviço:
no máximo um transatlântico
chega ali cada dia,
com muita pompa, protocolo,
e ainda mais cenografia.
Mas este setor de cá
é como a estação dos trens:
diversas vezes por dia
chega o comboio de alguém.
– Mas se teu setor é comparado
à estação central dos trens,
o que dizer de Casa Amarela
onde não para o vaivém?
Pode ser uma estação
mas não estação de trem:
será parada de ônibus,
com filas de mais de cem.
– Então por que não pedes,
já que és de carreira, e antigo,
que te mandem para Santo Amaro
se achas mais leve o serviço?
Não creio que te mandassem
para as belas avenidas
onde estão os endereços
e o bairro da gente fina:
isto é, para o bairro dos usineiros,
dos políticos, dos banqueiros,
e no tempo antigo, dos bangüezeiros
(hoje estes se enterram em carneiros);
bairro também dos industriais,
dos membros das associações patronais
e dos que foram mais horizontais
nas profissões liberais.
Difícil é que consigas
aquele bairro, logo de saída.
– Só pedi que me mandasse
para as urbanizações discretas,
com seus quarteirões apertados,
com suas cômodas de pedra.
– Esse é o bairro dos funcionários,
inclusive extranumerários,
contratados e mensalistas
(menos os tarefeiros e diaristas).
Para lá vão os jornalistas,
os escritores, os artistas;
ali vão também os bancários,
as altas patentes dos comerciários,
os lojistas, os boticários,
os localizados aeroviários
e os de profissões liberais
que não se libertaram jamais.
– Também um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:
cada um em seu escaninho,
cada um em sua gaveta,
com o nome aberto na lousa
quase sempre em letras pretas.
Raras as letras douradas,
raras também as gorjetas.
– Gorjetas aqui, também,
só dá mesmo a gente rica,
em cujo bairro não se pode
trabalhar em mangas de camisa;
onde se exige quepe
e farda engomada e limpa.
– Mas não foi pelas gorjetas, não,
que vim pedir remoção:
é porque tem menos trabalho
que quero vir para Santo Amaro;
aqui ao menos há mais gente
para atender a freguesia,
para botar a caixa cheia
dentro da caixa vazia.
– E que disse o Administrador,
se é que te deu ouvido?
– Que quando apareça a ocasião
atenderá meu pedido.
– E do senhor Administrador
isso foi tudo que arrancaste?
– No de Casa Amarela me deixou
mas me mudou de arrabalde.
– E onde vais trabalhar agora,
qual o subúrbio que te cabe?
– Passo para o dos industriários,
que também é o dos ferroviários,
de todos os rodoviários
e praças-de-pré dos comerciários.
– Passas para o dos operários,
deixas o dos pobres vários;
melhor: não são tão contagiosos
e são muito menos numerosos.
– É, deixo o subúrbio dos indigentes
onde se enterra toda essa gente
que o rio afoga na preamar
e sufoca na baixa-mar.
– É a gente sem instituto,
gente de braços devolutos;
são os que jamais usam luto
e se enterram sem salvo-conduto.
– É a gente dos enterros gratuitos
e dos defuntos ininterruptos.
– É a gente retirante
que vem do Sertão de longe.
– Desenrolam todo o barbante
e chegam aqui na jante.
– E que então, ao chegar,
não tem mais o que esperar.
– Não podem continuar
pois têm pela frente o mar.
– Não têm onde trabalhar
e muito menos onde morar.
– E da maneira em que está
não vão ter onde se enterrar.
– Eu também, antigamente,
fui do subúrbio dos indigentes,
e uma coisa notei
que jamais entenderei:
essa gente do Sertão
que desce para o litoral, sem razão,
fica vivendo no meio da lama,
comendo os siris que apanha;
pois bem: quando sua morte chega,
temos que enterrá-los em terra seca.
– Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
– O rio daria a mortalha

e até um macio caixão de água;
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal.
– E não precisava dinheiro,
e não precisava coveiro,
e não precisava oração
e não precisava inscrição.
– Mas o que se vê não é isso:
é sempre nosso serviço
crescendo mais cada dia;
morre gente que nem vivia.
– E esse povo de lá de riba
de Pernambuco, da Paraíba,
que vem buscar no Recife
poder morrer de velhice,
encontra só, aqui chegando,
cemitério esperando.
– Não é viagem o que fazem
vindo por essas caatingas, vargens;
aí está o seu erro:
vêm é seguindo seu próprio enterro

11 – O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE

– Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
ao meu aluguel com a vida.
E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).

12 – APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO

– Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabes me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabes me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
– Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado;
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
– Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muito água:
basta que chega o abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
– Severino, retirante
pois não sei o que lhe conte;
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
– Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
– Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço;
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
– Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?
– Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alarga
e devasta a terra inteira.
– Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
– Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
– Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
– Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
– Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
– Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
– Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
– Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

13 – UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ

– Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabeis que ele é nascido.

14 – APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, AMIGOS, DUAS CIGANAS, ETC

– Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor.
Foi por ele que a maré
esta noite não baixou.
– Foi por ele que a maré
fez parar o seu motor:
a lama ficou coberta
e o mau-cheiro não voou.
– E a alfazema do sargaço,
ácida, desinfetante,
veio varrer nossas ruas
enviada do mar distante.
– E a língua seca de esponja
que tem o vento terral
veio enxugar a umidade
do encharcado lamaçal.
– Todo o céu e a terra
lhe cantam louvor
e cada casa se torna
num mocambo sedutor.
– Cada casebre se torna
no mocambo modelar
que tanto celebram os
sociólogos do lugar.
– E a banda de maruins
que toda noite se ouvia
por causa dele, esta noite,
creio que não irradia.
– E este rio de água, cega,
ou baça, de comer terra,
que jamais espelha o céu,
hoje enfeitou-se de estrelas.

15 – COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O RECÉM-NASCIDO

– Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues;
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
– Minha pobreza tal é
que coisa alguma posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar;
aqui todos são irmãos,
de leite, de lama, de ar.
– Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago este papel de jornal
para lhe servir de cobertor;
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
– Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d’água de Lagoa do Cerro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.
– Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta sorrindo e de estalo.
– Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d’água
que só em Paudalho se fabrica.
– Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
– Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.
– Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
– Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
– Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
– Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
– Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
– Siris apanhados no lamaçal
que já no avesso da rua Imperial.
– Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
– Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte

16 – FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS

– Atenção peço, senhores,
para esta breve leitura:
somos ciganas do Egito, lemos a sorte futura.
Vou dizer todas as coisas
que desde já posso ver
na vida desse menino
acabado de nascer:
aprenderá a engatinhar
por aí, com aratus,
aprenderá a caminhar
na lama, como goiamuns,
e a correr o ensinarão
os anfíbios caranguejos,
pelo que será anfíbio
como a gente daqui mesmo.
Cedo aprenderá a caçar:
primeiro, com as galinhas,
que é catando pelo chão
tudo o que cheira a comida;
depois, aprenderá com
outras espécies de bichos:
com os porcos nos monturos,
com os cachorros no lixo.
Vejo-o, uns anos mais tarde,
na ilha do Maruim,
vestido negro de lama,
voltar de pescar siris;
e vejo-o, ainda maior,
pelo imenso lamarão
fazendo dos dedos iscas
para pescar camarão.
– Atenção peço, senhores,
também para minha leitura:
também venho dos Egitos,
vou completar a figura.
Outras coisas que estou vendo
é necessário que eu diga:
não ficará a pescar
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas;
não pensem que a vida dele
há de ser sempre daninha.
Enxergo daqui a planura
que é a vida do homem de ofício,
bem mais sadia que os mangues,
tenha embora precipícios.
Não o vejo dentro dos mangues,
vejo-o dentro de uma fábrica:
se está negro não é lama,
é graxa de sua máquina,
coisa mais limpa que a lama
do pescador de maré
que vemos aqui vestido
de lama da cara ao pé.
E mais: para que não pensem
que em sua vida tudo é triste,
vejo coisa que o trabalho
talvez até lhe conquiste:
que é mudar-se destes mangues
daqui do Capibaribe
para um mocambo melhor
nos mangues do Beberibe.

17 – FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES, ETC

– De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
– De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
– Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
– Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.
– De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
– De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
– De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
– De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
– É tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
– Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
– Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
– É tão belo como as ondas
em sua adição infinita.
– Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
– Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
– Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
– Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
– E belo porque o novo
todo o velho contagia.
– Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
– Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
– Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

18 – O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE DE NADA

– Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

Filme:• Morte e Vida Severina

Direção: Zelito Vianna – Brasil, 1976.

O filme nos faz pensar sobre uma condição de vida miserável que existe para milhares de brasileiros e que é geralmente ignorada (temos muita coisa para fazer na esfera privada, e quando nos sentimos culpados, reclamamos, doamos roupas, alimentos e dinheiro que geralmente são desviados e nos fantasiamos de jovens revolucionários, ora pregadores da reforma agrária, ora temerosos em perder os privilégios). Belas paisagens, sem contar com a excelente interpretação dos os atores.

2 opiniões sobre “RESUMOS DE DIVERSAS OBRAS LITERÁRIAS.”

    1. kkkkkkkkkkkkkk…Opa, copiar? ora, acho que está na hora de você fazer seu próprio resumo, Letícia! pois, o grande problema dos falantes brasileiros, é querer encontrar tudo pronto…pois escrevendo e tentando, com certeza, grandes ideias surgirão :)…e eu tenho certeza que você deve ser uma excelente estudante.
      Caso você necessite de ajuda ou apoio literário, deixe uma msg para mim, assim tentarei te ajudar. E aproveite e leia meu livro, que está à venda na internet, através da editora AGBOOK https://agbook.com.br/book/139641–As_Aventuras_e_Desventuras_de_Laura_Lorin

      Um grande abraço, Letícia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Falando Fácil-Língua Portuguesa

%d blogueiros gostam disto: