Análise do Discurso

Os sentidos do texto

Engana-se quem acredita que um texto é um objeto sempre pronto para ser inteiramente apreendido por alguém. Encarar dessa forma é ver na figura do leitor um ser passivo que simplesmente se conforma em decodificar a seqüência de palavras que está à sua frente. Diferente da crença alimentada pelo senso comum, o leitor nunca é passivo. Mikhail Bakhtin, filósofo da linguagem, nos lembra que o sujeito-leitor aciona a todo instante a chamada atitude responsiva ativa. Ou seja, diante do que lê ou do que ouve constrói uma interlocução permanentemente viva, mesmo que isso se dê sem manifestação verbal explícita: concorda, discorda, faz acréscimos, aponta outras direções, censura, polemiza, corrige rumos, enfim, o leitor é um ser atuante. É possível tirar boas lições pedagógicas dessa perspectiva.

Imaginemos um professor que acredita na unilateralidade da construção de sentidos de um texto. Ao postar-se diante dos alunos, certamente vai partir do princípio de que seu discurso, previamente elaborado sob a forma de aulas, está pronto para ser pacificamente absorvido por eles. Nesse contexto, caso os alunos apresentem qualquer resistência de compreensão ao que está sendo dito, a culpa caberá unicamente à sua falta de interesse e ao seu despreparo, afinal, nada mais comum do que o professor ser muito categórico: “Eu fui muito claro no que disse!” Como se vê, esse tipo de professor parte sempre da crença de que os alunos são seres passivos diante do discurso, e a eles, nos moldes preconizados pela educação bancária reportada por Paulo Freire, cabe apenas acumular as informações prontas e acabadas transmitidas no espaço de sala de aula. Ao aluno não é dada a possibilidade de autonomia para pensar, refletir e construir seus conhecimentos à luz das suas práticas sociais, já que os textos construídos pelo professor são cristalizados como verdades absolutas. Alimenta-se, assim, a falsa crença de que quanto maior o número de informações e quanto menor o de contestações mais completa se dará a aprendizagem.

Imaginemos, agora, um livro didático cujas estratégias de abordagem se pautem em semelhantes princípios. No que tange à atividade de interpretação, por exemplo, item obrigatório nesse tipo de trabalho, é quase certo que, após solicitar a leitura de um dado texto, o autor do livro apresente ao aluno um elenco de perguntas a ele relacionadas, tendo por objetivo proporcionar a compreensão e a interpretação do texto lido. Ocorre que tradicionalmente tais perguntas exigem respostas direcionadas, quer sejam para simplesmente ratificar o que está posto na superfície do texto quer sejam para atender a suposta perspectiva de quem o escreveu. Chega-se ao absurdo de propor perguntas cretinas como “Qual a mensagem do texto” ou, ainda, “O que o autor quis dizer com isso ou aquilo”, como se uma mensagem fosse inerente ao texto ou como se fosse possível adivinhar o propósito de quem escreve. Em outros termos, cria-se um círculo vicioso no interior do qual os alunos partem dos elementos do texto e estão sempre voltando ao próprio texto. Isso reflete uma perversa estratégia que retira do aluno o direito e a liberdade de mobilizar seus mecanismos de compreensão do mundo para colocar as idéias do texto em cotejo com a realidade na qual ele está inserido e, a partir dali, construir seus próprios sentidos, que serão frutos da sua experiência de vida.

Tanto na primeira quanto na segunda hipótese, há, dentre outros, dois desdobramentos possíveis. Se o professor conseguir uma ascendência muito grande sobre os alunos, tenderá a fazê-los crer que as verdades de suas palavras e do livro didático são incontestáveis, o que revelará uma prática pedagógica nefasta e autoritária. Se, por outro lado, o professor, mesmo tendo grande liderança sobre os alunos, garantir-lhes espaço para a construção de novos sentidos em cima de suas palavras e do livro didático, tenderá a fazê-los crer na relatividade das verdades, o que revelará uma prática pedagógica participativa em que professores e alunos são tidos como sujeitos atuantes na busca do conhecimento.

O sentido escorregadio das palavras

Existe a crença quase generalizada de que as palavras que compõem o universo lingüístico de um idioma são transparentes. No sentido de que, na perspectiva do falante, cada uma delas representa, com toda exatidão, apenas aquele significado que lhe foi socialmente passado. Assim, ao dirigir uma dada frase a alguém, esse mesmo falante acredita piamente que os significados dela retidos em sua mente serão exatamente os mesmos a serem captados pela outra pessoa. Daí ser comum, ao longo de uma conversa em que um dos lados entende diferentemente o que está sendo dito, uma das pessoas falar: “Eu fui muito claro! Não entendeu porque não quis!” Ledo engano. A coisa não se dá bem dessa maneira. Está-se diante do que os estudiosos do discurso chamam de ilusão do falante.

Para entendermos essa volatilidade das palavras, é preciso inicialmente estabelecer uma diferença entre significado e sentido. No primeiro caso, admite-se que as palavras têm um significado de base, aquele que lhe foi atribuído em decorrência do que Saussure chamou de convenção tácita entre os falantes de uma língua. No segundo, entretanto, esse mesmo significado pode adquirir uma infinidade de nuances, muitas das quais podem até ganhar autonomia semântica e perder o vínculo com a sua base. Falamos, então, de um dado significado que, em diferentes circunstâncias, assume diferentes efeitos de sentido.

A que se deveria esse fenômeno, se todos nós, brasileiros, falamos o mesmo código que se chama Língua Portuguesa? É bem verdade que a chamada língua materna é uma só, mas os falantes fazem uso dela de acordo com o interesse e as conveniências ditados pelo grupo social a que pertencem. Dito de outro modo, a base lingüística de uma palavra é a mesma para todos os falantes, mas os processos discursivos responsáveis pela construção dos diferentes sentidos são determinados pelas formações sociais e ideológicas que norteiam o conhecimento de mundo de um determinado grupo social. Queremos, com isso, dizer que a mesma heterogeneidade que caracteriza as relações sociais também caracteriza as relações discursivas. Convenhamos, por exemplo, que a expressão “fulano está passando por dificuldades financeiras” apresenta uma só base lingüística, mas não tem o mesmo sentido para quem, nessa situação, não pode comprar um pãozinho para matar a fome e para quem não pode sair em férias pela Europa! É nesse aspecto que, apesar de falarmos a mesma língua, nós a trabalhamos de acordo com os interesses do grupo social a que pertencemos.

Esse fenômeno lingüístico se particulariza para universos menores. Para ficarmos num só exemplo, os sentidos construídos para uma determinada palavra na área jurídica não são os mesmos para ela construídos nas áreas de filosofia, sociologia ou comunicação social, apesar da base lingüística ser exatamente a mesma. Ou seja, o sentido é construído a partir do lugar social de onde se fala. Diferentemente do simplismo a que se possa reduzir, essa heterogeneidade da linguagem representa o que há de mais belo e extraordinário na vida do ser humano, pois aí está situado o incondicional espaço de construção da sua liberdade.

É por essas e outras que todos nós estamos sujeitos às armadilhas semânticas da língua. Afinal, de que se alimenta o fazer jurídico, por exemplo, senão da interpretação da base lingüística daquilo que é dito?

As malícias da linguagem

Em se tratando da linguagem, não há espaço algum para a ausência de sentidos e muito menos para a neutralidade. Ora, sendo esse o fenômeno que dá ao ser humano a sua condição de racionalidade, tudo o que se diz, o que não se diz, como se diz e de onde se diz envolve a construção de sentidos. Não temos, portanto, para onde correr.

Quando dizemos algo, em quaisquer circunstâncias da vida social, nunca o fazemos sem algum propósito, mesmo que esse propósito não se mostre explícito no plano da consciência. Afirmar, por exemplo, que a atual tarifa do transporte coletivo em Manaus é justa não se limita ao que está sendo dito. Por trás dessas palavras, pretende-se convencer o interlocutor de que a razão está com quem fez a afirmação. Ou seja, sempre que nos manifestamos, nunca queremos apenas ser ouvido, mas respeitados, acreditados, admirados.

Quando evitamos falar, resguardando-nos no silêncio, acreditamos que nenhum sentido foi produzido para o interlocutor. Ledo engano. Calar, por exemplo, diante da afirmação de que é importante criar uma coordenadoria para defender a imagem da CMM e de seus vereadores acaba traduzindo, no mínimo, cumplicidade com o que foi dito. Ou seja, o silêncio fala. Ele existe no plano puramente fisiológico, da não manifestação pela fala, mas é sempre carregado de sentidos.

Quando construímos nosso discurso, achamos que tanto faz dizer de um jeito ou de outro, que os sentidos serão sempre os mesmos. Não é bem assim. Em uma manchete de jornal, por exemplo, há muita diferença entre “Mais de 170 mil estão sem livros didáticos” e “Estado tem 170 mil estudantes sem livros”. Ou seja, a projeção de sentidos não se restringe apenas ao que se diz, mas, sobretudo, ao como se diz.

Quando ouvimos diferentes pessoas falarem, não costumamos relacionar o que elas dizem à posição social que ocupam, mas isso tem tudo a ver com os sentidos do seu discurso. Teria passado em brancas nuvens, por exemplo, a frase do então deputado Severino Cavalcante estabelecendo um prazo ao Presidente da República para nomear um apadrinhado seu, se ele não estivesse na condição de Presidente da Câmara dos Deputados. Ou seja, o lugar social de onde se fala tem interferência direta na construção e repercussão dos sentidos do discurso.

Em se tratando da linguagem, no mínimo devemos nos dar conta dessas particularidades e as administrarmos sem ingenuidade.

A natureza do discurso

O discurso nunca é gratuito. Traduzindo em miúdos: nunca se fala por falar, nunca se diz por dizer. De forma velada ou ostensiva, ele sempre traz consigo um dado propósito. Em outros termos e no sentido mais genérico, todo discurso é de natureza política, porque administra mecanismos que têm por fim agir sobre o interlocutor. A propósito, referindo-se à língua como instrumento de poder, o sociólogo Pierre Bourdieu nos lembra que, ao falarmos, “não procuramos somente ser compreendidos, mas também obedecidos, acreditados, respeitados, reconhecidos”. Pode-se afirmar, portanto, que a linguagem é desprovida de inocência.

Mas essa natureza política do discurso pode se manifestar alicerçada nas mais diferentes estratégias. No caso do chamado discurso religioso, vislumbro, de imediato, duas formas de ação. Na primeira, ele se sustenta em um número restrito de palavras e conceitos. Estabelece, com isso, uma relação única, direta e indiscutível entre o sujeito e o caminho da salvação que lhe é oferecido. Neste caso, a descontextualização constrói o fetiche e, conseqüentemente, favorece a fidelidade e a dependência mais estreitas entre quem diz e quem ouve. Na segunda, o discurso religioso é calcado num universo muito mais amplo de palavras e conceitos. Estabelece, com isso, nexo entre o sujeito e o caminho da salvação que lhe é oferecido e as mais diferentes e antagônicas formas de relações sociais. Neste caso, a contextualização permite ao sujeito alvo do discurso maior espaço para pensar o mundo que está em seu redor e, conseqüentemente, até desmontar as estratégias discursivas de seus interlocutores.

Nestas e em outras situações, só não é prudente entender o discurso apenas como uma ingênua forma de comunicação entre as pessoas. Ou alguém ainda acredita que este meu texto tem as marcas da neutralidade?

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2 opiniões sobre “Análise do Discurso”

  1. estou fazendo pós em produção textual, e é uma disciplina apaixonante, um pouco complexa, mas interessante. enfim, me apaixonei.

  2. Rsrs…Nossa, Elma, que maravilha viu?!! concordo com você, pois Produção Textual é como tecer uma grande rede de conhecimento de mundo ao seu redor! adoro confeccionar textos em suas diferentes modalidades; o texto é enriquecido, à medida em que o falante capta e filtra todas informações da fala e da escrita de mundo.
    Existe também, um método interessante de trabalhar o texto em sua produção: A Refacção Textual – aqui o individuo compõe seu texto, em caráter particular, e num critério de ser enviado ao professor irá corrigir, por e-mail, este preparará todos os textos de alunos num material de transparência, e durante as aulas, ele projetará as produções textuais, no data show, para que todos os alunos juntos possa compartilhar do texto, ajudando nas devidas correções, isso se houver necessidade; nesse processo, somente o autor de cada texto saberá reconhecer o seu; no decorrer da aula, o texto não pertencerá mais a seu autor, mas sim a todos, em caráter social. Pois, cada colega contribuiu para a modificação do novo texto, a tal “Refacção Textual” – isso significa refazer toda uma produção escrita. O bom, é que no final de tudo, sairá um texto coeso, conciso, enxuto, gramaticalmente correto e semanticamente aprovado por um grupo que concordou em modificá-lo…..em seguida, compare o novo texto (refeito), com o texto original (o primeiro).

    Elma, obrigada, por ter deixado seu comentário, aqui! sempre que desejar algma informação, estarei a sua disposição! é sempre um prazer poder servir meus amigos internautas.

    Um beijão!

    Gleide Castro.

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